Mais eleições

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No ano passado, eu até brincava com o fato de termos tantas postagens sobre eleições por conta das que ocorriam mundo afora. Pra não perder o costume, hoje vamos falar não de uma, mas duas, que movimentaram o noticiário internacional nesse fim de semana – e que sem dúvida são bastante importantes, cada uma a seu modo.

Primeiro, vamos ao caso mais próximo, na Argentina, onde a eleição presidencial rendeu a Cristina Kirchner mais um mandato. É simplesmente o caso de continuidade no poder mais longo na Argentina nos últimos 150 anos – contando com os mandatos do falecido Nestor, que era o verdadeiro articulador do governo de sua esposa até sua morte, vão ser 12 anos ininterruptos de “kirchnerismo”. Claro que o recorde pode ser quebrado se a base governista conseguir implantar uma reforma constitucional – já se fala em reeleições a perder de vista.

É complicado pensar em como isso afeta nossos vizinhos e seu futuro – Cristina passa por uma onda de boa sorte, com popularidade em alta (muito disso devido à morte de seu marido?) e a Argentina saindo dos anos de trevas do começo do século XX com o bom preço das commodities e consumo em expansão. Mas até quando? Basta pensar que crescimento ancorado em consumo não teve a melhor das conseqüências nos EUA, quanto mais na Argentina. E tudo isso regado em denúncias de corrupção e de perseguição à mídia “independente”. Ninguém é santo nessa história, mas Cristina cada vez mais consolida um modelo de governo meio popularesco e gradualmente centralizador que não traz boas lembranças ou resultados…

Acham que isso pode ficar feio? Na Tunísia, as coisas não são melhores. As eleições parlamentares de sábado ainda não tiveram resultado definitivo divulgado, mas a expectativa é que o partido moderado, o Ennahda, leve a melhor. Como isso pode ser ruim, no país que inaugural a danada da “primavera árabe” e onde se vê o primeiro resultado prático dela? O problema é que todo o processo eleitoral está sendo muito conturbado, com denúncias de corrupção, financiamento de países do Golfo e, principalmente, falta de identidade política. Não se vê um “projeto” de governo para o país, e as tensões mais diversas, de religiosas a políticas, começam a pipocar.

Esse é o drama dos países do Oriente Médio onde as “revoluções” deram certo (ou ao menos, tiraram os ditadores do poder). A coisa que unia esses movimentos era justamente a oposição aos governantes. Como eles fora do caminho, começa a luta interna pelos espólios – na Tunísia, completa discordância sobre os rumos a se tomar; no Egito, os militares não largam o osso até segunda ordem (as eleições de novembro); e na Líbia, que hoje vive no caos, é duro ver uma possível democracia que nasce com um assassinato covarde sem conseguir garantias mínimas de um Estado de direito.

Aliás, não estaríamos errados justamente em pensar nesses movimentos como democráticos, quando na verdade eram apenas reivindicatórios? A mídia e governos ocidentais exaltam o teor democrático deles, mas não seriam apenas movimentos coordenados por uma causa comum, com dinâmicas regionais e internas próprias, e que no fim das contas não têm nenhum interesse em desenvolver algo como a democracia entendida pelos ocidentais? Isso sem falar em como os regimes conservadores se fecharam ainda mais ou aumentaram a repressão para evitar problemas. Dá o que pensar, e é mais um balde de água fria para aqueles que esperavam uma revitalização democrática nos regimes da região.

A discussão não para aqui. Eleições podem ser tanto termômetros de situações correntes quanto sinais de mudanças. Ainda esse ano, esperam-se eleições no Egito, e ano que vem, na Líbia, além da corrida presidencial nos EUA, só para ficar nas mais esperadas. Fiquem ligados.


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