Mais corrupção

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Há pouco mais de um ano, a Bianca fez uma série de posts sobre a Bósnia por ocasião dos 20 anos do início do conflito na região. Como então tratado, o país enfrenta questões relativas à reconciliação, divisões políticas e problemas econômicos. Ainda assim, nutre o anseio de entrar na União Europeia.

   

A Bósnia é formada por duas entidades que funcionam de forma autônoma. Em uma destas, um evento ajudou a corroborar uma percepção de sua população. Não bastasse as dificuldades já mencionadas e as marcas de um conflito recente, um grupo de membros do governo da Federação da Bósnia-Herzegovina (umas das entidades que compõe o país) adicionou mais uma questão na conta.   

A organização internacional Transparency International mantém um ranking anual sobre a corrupção mundo afora, baseada em como a sociedade entende o funcionamento do setor público. A Bósnia soma 43 (escala de 0-100) no levantamento, resultando em uma alta percepção de corrupção por seus cidadãos. Segundo o estudo, o quadro se traduziria no fracasso de serviços públicos básicos, atrasos em obras de infraestrutura, subornos para aceder a ajuda médica, entre outros. 

No último dia 26, a Federação da Bósnia-Herzegovina viu seu presidente, um assessor da presidência e o chefe da Comissão de Anistias serem presos. Foram, no total, 18 prisões realizadas pela polícia como parte de uma operação anticorrupção, ante suspeitas de diversos crimes. Os três políticos mencionados são acusados de receber suborno em troca de anistias oferecidas a narcotraficantes e de abuso de poder.  

Não deve chegar a ser uma grande surpresa, afinal o país detém o indecoroso título de país mais corrupto da Europa. O procurador de justiça de Sarajevo indica algo mais preocupante. Para ele, a justiça e os investigadores não dispõem de meios suficientes para enfrentar o poderio da corrupção vinda de entidades governamentais. Além disto, o problema se estende a aspectos do cotidiano, como por meio de propinas para facilitar tratamentos médicos e “gorjetas” para professores.  

A fragmentação política, que não se encerra na divisão em duas entidades, torna a situação dramática. A própria Federação da Bósnia Herzegovina se divide em outras 10 regiões, cada qual com seu governo e polícia. Pior, a cooperação e a colaboração entre as entidades são escassas. Uma esperança surgiu em 2003, com a criação de uma agência aos moldes do FBI americano para investigar crimes de guerra e o crime organizado. Em parte, foi resultado de fruto de uma missão da União Europeia para fortalecer as instituições bósnias.  

O anseio de lograr um lugar na União Europeia talvez possa despertar ao menos parte das reformas necessárias. Isto passará por entendimento político interno, porém poderá também ser impulsado por exigências da entidade europeia. Um outro possível combustível é o nacionalismo, à medida que outros países dos Balcãs avancem na direção do bloco regional e a Bósnia fique para trás. De positivo, por enquanto, fica o avanço em investigações deste gênero e a garantia de levar a justiça os suspeitos.  

Para uma nota final, fica um desdobramento do tema. Os 43 pontos somados pelo país tema do post o deixam em 72º; um posto à frente do Brasil, que somou 42. Será que estamos tão mal assim?  

Imagem: fonte

Reveja a série sobre a Bósnia: 1, 2, 3 e um artigo do Le Monde com mais detalhes: 4


Categorias: Europa, Política e Política Externa