Luta azeda

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Boxe não é exatamente o esporte mais civilizado que existe, mas é uma das analogias a que se refere quando queremos falar de eleições. Existem regras na luta, e um certo charme no evento em geral. Porém, estamos chegando a um ponto em que as eleições estão virando um vale-tudo, mas sem a punição por golpes abaixo da cintura. Basta ver o lamaçal que está virando a eleição presidencial francesa, com o Kadafi voltando do túmulo pra aterrorizar Sarkozy, acusações baixas e uma nada saudável tendência à polarização entre extremas esquerda e direita que não vai dar em coisa boa qualquer que seja o resultado. 

Agora, e quando uma luta acaba, os pugilistas voltam pra casa mas um deles decide se vingar indo com alguns capangas e pegando o outro desprevenido no caminho de casa? A imagem é exagerada, mas meio que mostra o que está acontecendo na Ucrânia. Já tivemos a oportunidade de falar sobre Yulia Timoschenko por aqui – ela foi uma das protagonistas de uma revolução não-violenta em 2004, quando junto de Viktor Iuchenko desbancaram uma eleição fraudulenta e se tornaram primeira-ministra e presidente. O problema é que em 2010 eles já não eram tão amigos assim e viraram rivais no pleito daquele ano, em meio a denúncias de corrupção. O resultado foi a vitória de Viktor Ianukovitch, o mesmo que haviam derrubado em 2004, e o castigo veio a galope – no mesmo ano ela foi removida do cargo com uma moção de desconfiança do Parlamento, e foi aberto um processo por abuso de poder contra ela. Em outubro do ano passado ela foi condenada a 7 anos de prisão e a devolver o dinheiro que obteve por meio de sonegação. 

Esse é o problema atual. Timoschenko não é nenhuma santa, como oligarca do petróleo que é, mas analistas e observadores europeus dizem que o processo deveria ser revisto; segundo a Anistia Internacional, a prisão foi de cunho político – uma vingança tardia de Ianukovitch? Timoschenko é sua maior opositora, e diz que o judiciário está fabricando acusações. A imagem negativa do caso piorou na semana passada, quando soltaram imagens de Timoschenko com hematomas pelo corpo (teia sido espancada na prisão, quando tentaram levá-la à força para um hospital), e ela adotou a moda sul-americana, fazendo greve de fome. 

Isso vai render muitos problemas para o governo, que já enfrenta atentados à bomba (segundo os mais paranóicos uma tentativa do governo de distrair a mídia do caso da ex-primeira-ministra) e está prestes a sediar um evento esportivo de grade calibre, a Eurocopa (em parceria com a Polônia). Muitos líderes e ministros europeus já confirmam o boicote ao campeonato de futebol, e isso seria um golpe terrível ao prestígio do governo atual. Esse é apenas mais um round dessa luta pelo poder, que às vezes se traveste de eleição, com todas as conseqüências danosas em longo prazo…


Categorias: Europa, Política e Política Externa


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