Lula e Uribe em São Paulo

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Uribe e Lula na sede da FIESP hoje

[Post longo, mas legal!]

Estive hoje na FIESP para o Encontro Empresarial Brasil-Colômbia e tive a oportunidade de, pela primeira vez, ouvir um discurso do Lula poucos metros à minha frente.

Estavam, além do nosso presidente, o Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, os ministros Celso Amorim e Miguel Jorge, o governador José Serra e outras autoridades de alto escalão dos governos brasileiro e colombiano, além de empresários.

Depois do fórum, encerraram o evento as autoridades. O primeiro a falar foi o presidente da FIESP e da CIESP, Sr. Paulo Skaf.

Rasgou milhares de elogios ao seu ‘amigo pessoal’ presidente Lula. Elogiou a postura do Brasil na crise internacional, enfim. Estranho, pois o Sr. Skaf sempre foi um dos maiores críticos às políticas monetária e fiscal do governo. Será que é porque agora ele é filiado ao PSB, partido da base aliada, e vai disputar o governo de São Paulo?

Peraí! PSB? O tal Partido Socialista Brasileiro? O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo se filiou a um partido socialista? Isso mesmo… Não vou me estender demais na incongruência de o representante do setor privado paulista concorrer ao governo por um partido socialista. Se fosse em outro país eu duvidava. Mas no Brasil pode.

Uma decepção pessoal foi ouvir o discurso do Serra. Ele parecia confuso, nervoso. Cometeu vários erros, um que me marcou foi dizer que o Uribe é presidente desde 1902. Gafes pequenas, claro, mas que o mais cotado a ser o próximo presidente do país não poderia cometer, ainda mais com um Chefe de Estado. Tirando isso, nada de extraordinário em seu discurso, exceto as tentativas de falar nas entrelinhas que os centros de pesquisa e educação de São Paulo são superiores aos federais.

E veio a vez do Lula. No começo um discursinho lido meio mequetrefe. Nenhuma frase de efeito, nenhum improviso, até meio entediante.

Mas aí ficou nítido que ele tinha terminado de ler e disse: Uribe, agora vou falar mais umas palavrinhas.

E ele se livrou do papel e levantou a platéia! Ele é bom mesmo, não há o que se dizer.

O Presidente da Vale estava lá. E o governo anda querendo derrubá-lo (leia mais aqui). E o Lula não perdeu a oportunidade de cutucar o Agnelli. Saiu até nos jornais. Ele disse que a Vale investiu 380 milhões na Colômbia e poderia ter investido mais. Disse ainda que não adianta ficar sentado na cadeira da Vale, tem de sair pra vender, disputar ‘cada milímetro’. O Lula poderia ser o presidente da Vale depois que acabar seu mandato, porque ele está dando muitos palpites sobre os rumos que a empresa deve tomar, não é mesmo?

Integração foi a palavra de ordem. Em vários momentos, Lula falou do projeto de integração regional e de como a Colômbia é importante para ele.

Interessante foi a colocação do Brasil como o grande motor desse projeto. Em vários momentos, ele disse que o Brasil é um país grande, que tem força e é o único capaz de financiar a integração regional.

Ele disse: “É o Brasil que tem de tomar a dianteira para que aconteçam os negócios (…) Ou o Brasil reconhece que é grande e maior e resolve assumir seu papel, sem hegemonia, ou nada acontece”.

Essa foi uma das muitas frases nesse sentido. Falou do BNDES como financiador, do Banco do Sul e outras iniciativas regionais.

Ele ainda reclamou que os EUA, país sem tantos laços regionais, tem 45% do comércio da Colômbia, enquanto a parcela do Brasil não chega a 20%. Disse ainda que Brasil e Colômbia precisam de um acordo forte em termos de segurança (e negou incômodo sobre as polêmicas bases). E, como sempre, reclamou daqueles que criticam seu governo em termos de política externa / acordos comerciais.

Um ponto interessante, e que já está há tempos sendo negociado, é que o presidente pretende levar uma posição conjunta dos países amazônicos para a Conferência do Clima no fim do ano. Interessante, mas nem o Brasil tem posição própria ainda… Se der certo, no entanto, seria extraordinário.

Uma parte engraçada foi quando Lula falou sobre o fim de seu mandato. Ele disse: “Uribe, tenho um ano e dois meses de mandato. Você… (risos da platéia e constrangimento nítido do Uribe) bem… pode ter… bem… teoricamente, termina seu mandato daqui a 10 meses…” Engraçado, mas constrangedor dadas as polêmicas do 3° mandato do Uribe.

Aí foi a vez do Uribe. Ele tem um estilo mais polido, diferente do Lula, mas tão bom quanto ele. Extraordinário. Falou muito bem de verdade, uma oratória fantástica. Deu pra ver porque o espanhol é considerada a língua mais rica para se escrever ou falar.

Mais uma vez, integração. Disse que antes não havia fronteira, havia uma parede. Agora, as coisas são diferentes. Investimentos, acordos comerciais, etc…

Uribe se comprometeu, junto ao Lula, a dobrarem o comércio bilateral nos próximos 10 meses (O comércio dobrou de 2004 a 2008).

Ainda disse que eles precisam da ajuda do Brasil para crescer, mas que os EUA são um parceiro estratégico. Aliás, ele ressaltou várias vezes que eles precisam da ajuda do Brasil, corroborando o que o Lula havia dito.

Disse ainda (O Lula também havia dito algo parecido) que antes se tinha temor do Brasil, que agora é visto como parceiro.

Fez questão, ainda, de falar do narcotráfico, dos avanços que conseguiu (justo, porque seu trabalho foi muito bem feito) e se posicionou contra a legalização das drogas.

Enfim, foi uma reunião muito legal, uma oportunidade ímpar de ouvir dois líderes da América Latina falando, há poucos metros, sobre integração regional.


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