London Calling

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Quem lê sobre isso até pode achar que está acontecendo aqui no Brasil. Um jovem foi morto em circunstâncias suspeitas depois de ter sido abordado por uma força especial da polícia. A população se revolta e vai protestar conta a truculência policial e falta de trato com a comunidade; eventualmente a passeata perde o controle e vira uma verdadeira chusma. O resultado são saques coordenados a estabelecimentos comerciais, mais de 100 presos e 30 policiais feridos. Rio de Janeiro? Não, mas em outra cidade olímpica, Londres. Como cantava a banda The Clash:

London calling to the faraway towns

Now that war is declared-and battle come down

London calling to the underworld

Come out of the cupboard, all you boys and girls

As reflexões sobre esse caso são inúmeras. Antes de tudo, há coisa de 20 ou 30 anos fervilhava esse tipo de tumulto e agitações na Inglaterra. A contestação econômica (crise, desemprego, etc.) e política (questão da Irlanda do Norte, etc.) fomentava revoltas e movimentos de contra-cultura, e dessa violência latente que surgiu nesse contexto apareceram coisas do movimento punk aos hooligans do futebol. Claro que boa parte disso foi superada com a rigidez e disciplina britânicas.

Pois bem, os tumultos que aconteceram no último fim de semana foram no bairro de Tottenham, um dos bolsões de pobreza e imigrantes da capital inglesa. Quando estouraram problemas parecidos em Paris, há alguns anos, até era de se esperar algo assim por causa do volume de imigrantes e todos os problemas de desequilíbrio de renda envolvidos que criaram um verdadeiro barril de pólvora. Mas, em Londres? Onde daqui a um ano tem um super evento multicultural com a Olimpíada, mesmo com a crise as coisas não vão mal, e uma tradição centenária de imigrações criou uma atmosfera meio que cosmopolita? Vale lembrar que por conta de fatores como a abolição precoce da escravidão e o Commonwealth (que torna até hoje súditos da rainha os povos que já foram parte do Império Britânico), sempre houve um grande volume de “não-europeus” (paquistaneses, indianos, negros africanos) na Inglaterra. Preconceito e atritos sociais não deixam de existir, mas são bem mais amenos que em outros países da Europa por conta dessa tradição.

E agora, o que esse evento pode nos mostrar? É impossível não traçar um paralelo com a morte do brasileiro Jean-Charles, fruto (também?) de erro da polícia. Situações parecidas, resultados diferentes. Não houve revolta no caso do brasileiro por ser imigrante e no de Mark Duggan por ser alguém do povo? Ou os tempos eram diferentes? O contexto atual de crise e incerteza, somado a tensões acumuladas da população mais pobre contra o tratamento da polícia (que parece ser o mesmo em qualquer lugar do mundo… até mesmo na Inlgaterra, onde os policiais nem andam armados!) resultou em uma onda de violência “ultrajante” e como não se via há tempos. A morte de Duggan e a ação de bandidos no meio dos protestos foi um gatilho para que alguns membros da população exprimissem uma enorme insatisfação reprimida. Não é o caso de ser alarmista, e pode ter sido algo isolado, mas de todo modo, esse fato improvável pode ser um sinal preocupante de como as tensões sociais e econômicas na Europa estão atingindo um limite – se na Inglaterra as coisas vão mal assim, quanto mais na França ou Alemanha…

PS.: O título do post é homônimo da música citada. É uma alegoria dos problemas sociais e econômicos ingleses dos anos 70, e pode vir a servir para a situação atual. Uma análise bem interessante de como se tornou um hino involuntário e inapropriado dos jogos de 2012 se encontra aqui.


Categorias: Cultura, Economia, Europa


2 comments
Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

Obrigado pelas palavras Hugo. Meus textos não chegam perto de seu trabalho (excelente, por sinal) no Mistura Indigesta, mas faço o melhor que posso, haha. O que preocupa é imaginar como essa situação pode se deteriorar e acabar "inspirando" outras revoltas pela Europa (que se ocorrerem vão ser em grau MUITO pior).

Hugo Ciavatta
Hugo Ciavatta

Muito bom o texto, Álvaro. Preciso e ao mesmo tempo nada pretensioso num momento tão delicado como o atual... Parabéns!Abraços