Lidando com os norte-coreanos…

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[Mais um post do ex colaborador fantasma Rafael Teixeira Braz que, pelo reaparecimento e apoio nos podcasts, será reintegrado à equipe da Página Internacional!]

Veja aqui e aqui os links deste post.

Na mais recente reunião da Assembléia Geral das Nações Unidas, uma das principais preocupações das nações continua sendo a questão nuclear no que concerne os dois países mais problemáticos no assunto, o Iran e a Coréia do Norte. Neste artigo abordarei a situação da República Popular Democrática da Coréia ou, como a maioria a conhece, Coréia do Norte, em virtude da afinidade de pesquisa.

O impasse da Coréia do Norte se dá após diversas (e quando digo diversas quer dizer que estamos na 6ª) tentativas de negociação entre o país e mais 5 países que seriam diretamente afetados em caso de algum “acidente” com o material nuclear norte-coreano (sem contar as negociações lideradas na década de 90 pelo presidente Bill Clinton). Eles formam a six-party talks, China, Estados Unidos, Rússia, Coréia do Sul, Japão e a própria Coréia do Norte. A negociação multilateral dura já há algum tempo, desde 2003, sem apresentar alguma solução para parar o desenvolvimento nuclear norte-coreano e, aliás, às vezes até piorar a situação em alguns aspectos.

Nos últimos meses a República Popular Democrática da Coréia (RPDC) já realizou cerca de 2 testes balísticos, onde lançou 7 mísseis no mar do Japão e no Oceano Pacífico e realizou um teste nuclear, em um subterrâneo do país, o que motivou uma reação de condenação instantânea da sociedade internacional perante o ocorrido. Em reunião do Conselho de Segurança da ONU em 12 de Junho de 2009, foi traçada a resolução 1874 que além de condenar os testes, complementa a resolução anterior de 2006, 1718, demandando a paralisação do programa nuclear norte-coreano e a volta do país ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) sobre a guarda da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). No entanto, o comprometimento da RPDC com o programa nuclear parece maior do que com o término deste, como já podíamos esperar.

Após tantas tentativas de negociação que terminavam em alguma das partes descumprindo o acordado, o objetivo da Coréia do Norte continua sendo o de obter facilidades e incentivos econômicos com o programa nuclear, aumentando seu poder de barganha com os Estados Unidos e seus aliados. Vale lembrar que a República Popular Democrática da Coréia apresenta direcionamento ideológico bastante forte, doutrina originária do fundador da República Kim Il Sung (o kimilsungismo ou juche), que prega o caminho da independência político-econômica do país, a auto-suficiência do Estado. Contudo, para um país que há uma década e meia vivia uma grave crise de abastecimento de alimentos para a população (e ainda vive grandes dificuldades), que tem uma crescente necessidade de novas fontes de energia, pois não consegue abastecer a totalidade do país, e se encontra dentro de um sistema global que cada vez mais apresenta uma interdependência entre os países, a República Popular Democrática da Coréia realmente parece estar em órbita.

Na terça-feira, o presidente da República da Coréia (Coréia do Sul), decidiu apresentar uma proposta de ajuda financeira e energética à Coréia do Norte para que esta, em troca, restabeleça o caminho da não proliferação nuclear. Ora, após tantas tentativas de negociação, sucessos e retrocessos, o presidente sul-coreano que, diferentemente de seu antecessor, possui uma linha de adoção de medidas muito mais duras com a o vizinho do Norte, parece agora querer resolver uma situação que se estende já há décadas em alguns simples movimentos. Contudo, é muito importante lembrar que ultimamente a Coréia do Norte tem se demonstrado muito mais atenta às políticas internacionais reagindo na mesma medida em que a sociedade internacional age (vide a reação deste país aos entraves da six-party talks no início do ano que o motivou a dar sequência aos testes balísticos que por sua vez deram o que falar no Conselho de Segurança da ONU em junho) e agora, novamente enuncia uma possível reaproximação dos países para a volta das negociações a partir do contato com a China.

Assim, estratégia básica: nunca baixe todas as suas cartas na mesa de uma só vez a não ser que saiba exatamente quais são as cartas do seu oponente e que a vitória é garantida. E em matéria de conhecer as cartas do oponente… sabemos o quão difícil é ver o que acontece dentro do país sob o regime mais fechado do mundo.

A nova resolução aprovada hoje, dia 24 de Setembro, pelo Conselho de Segurança (CS) contra a proliferação nuclear deve aumentar a pressão também sobre a Coréia do Norte, contudo, nada que mude radicalmente a conduta do país. Nesse momento o objetivo principal de Kim Jong Il é tirar proveito das negociações, depois de todas as demonstrações de “disposição” do país nos últimos meses.

Aguardemos a divulgação do conteúdo da proposta sul-coreana, bem como a resolução do CS ou de outras negociações para fazer mais comentários, pois até lá só podemos lidar com hipóteses.


Categorias: Ásia e Oceania, Organizações Internacionais


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