Lições do Príncipe

Por

Dando continuidade ao tipo de abordagem do blog, não falaremos mais de notícias em si, os jornais estão cheios. Então, para comentários sobre a situação em si, ouça aqui este podcast gravado com o professor Luís Fernando Ayerbe, professor de Relações Internacionais da UNESP (muito bom!).

Realmente alguém pensa que se pode governar sem apoio? Seja num regime democrático, monarquista, absolutista ou que quer que seja, não se governa sem uma base. Afinal, por mais concentrado que esteja o poder, ele nunca é tão tanto a ponto de uma pessoa sozinha manter o controle de tudo, inclusive dos interesses alheios, inerentes à raça humana e, conseqüentemente, à política em si. Por mais hobbesiano que se seja, nenhum cidadão sozinho consegue colocar as rédias no Leviatã.

O regime democrático, por natureza e definição, divide o poder por si só. Por menos que funcionem, as instituições democráticas têm seus poderes. E basta um interesse de alguém que tenha algo de poder para que eles apareçam. Quem nunca questionou a justiça brasileira, por exemplo? Os banqueiros conseguem os habeas corpus a que tem direito, enquanto os pobres…

A situação em honduras não foi diferente. O presidente Zelaya foi eleito por uma coalizão de direta. O congresso tem maioria com essa ideologia. Aliás, ele mesmo, um rico fazendeiro, representava a elite do país.

E eis que de repente o cara resolve virar pra esquerda. Alia-se à Venezuela, entra pra ALBA, começa a tomar medidas esquerdizantes no país, enfim. Aí, não tem jeito, sem apoio, ninguém se sustenta, por mais óbvio que pareça…

O estopim foi que ele quis dar uma da Chávez, Correa ou Morales e marcar pra setembro um referendo que podia dar a ele o poder de se eleger hasta la muerte. Na Venezuela, a situação é muito diferente. Chávez, em seu longo mandato, conseguiu indicar uma suprema corte que o apóie e tem 100% dos assentos no legislativo (lembrem-se que lá a oposição, nas últimas eleições para o congresso, teve a brilhante idéia de fazer um boicote. Conclusão: não elegeram quase ninguém…).

Em Honduras, não. O Congresso não apoiava mais o presidente, a suprema corte toda é contrária ao homem. Aí Maquiavel explica o resto: golpe.

O problema lá é que há um contencioso sobre o fato de ele ter renunciado ou não. Nunca saberemos a verdade. O fato é que os militares (já diziam por aí que tem as armas define o jogo…) tiveram de ser ‘acionados’ e retiraram o Zelaya do poder.

Mas por que um país tão ‘significante’ quanto Honduras está ocupando lugares tão privilegiados nos jornais?

1. Os assuntos ultimamente estão meio esgotados. Irã, Coréia do Norte, crise no senado, gripe do porco. Convenhamos, para a mídia, um golpe em Honduras veio muito bem para vender jornais.

2. A questão é que parece que a América Latina tem uma vocação para golpes militares. Os exércitos capengas das repúblicas das bananas por aí vivem a dar golpes. Qualquer motivo que seja é o suficiente para derrubar alguém do poder. E não são só golpes militares. Tem de todo tipo nessa cesta, civis inclusive, como a tentativa na Venezuela em 2002.

E aí que mora o perigo. Qualquer golpe, mesmo que seja para retirar um presidente que desobedeceu as ordens do congresso e do judiciário (como no caso de Honduras), mesmo com boas intenções, é um golpe contra o regime democrático, que por pior que seja é o único que dá ao povo a chance de se fazer representado de uma forma ou de outra. Ou alguém acha que a monarquia na América Latina seria interessante?

É um precedente perigoso.

O fato é que lá a população apóia o presidente. E aí outra vocação da América Latina volta a assustar: guerra civil… Vamos ver no que dá isso tudo.


Categorias: Américas, Política e Política Externa