Licença para matar com impunidade?

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“Licença para matar com impunidade” foi como o Conselho Nacional Sírio (representante dos grupos de oposição) caracterizou o veto de China e Rússia ontem contra a proposta do Conselho de Segurança das Nações Unidas em relação à crise Síria. A resolução se baseava no apoio ao plano de paz da Liga Árabe, indicando a necessidade de renúncia de Bashar al-Assad, atual presidente sírio.

A China e, especialmente, a Rússia possuem fortes laços geopolíticos e econômicos com o governo da Síria, e já haviam declarado publicamente a recusa contra qualquer resolução que visasse uma “mudança de regime”. O bom e velho debate entre soberania e intervenção humanitária volta à tona na análise do caso sírio… [Veja recente post no blog a este respeito aqui.]

Até que ponto conflitos com grandes perdas humanas podem ser aceitos pela comunidade internacional como “assuntos internos”, sem que qualquer intervenção seja arquitetada? Mas até que ponto os interesses de uma intervenção deste tipo são estritamente humanitários? Por que existem crises que parecem ser simplesmente esquecidas pela comunidade internacional, na medida em que não se encontram relacionadas a nenhum interesse estratégico paralelo? [O clássico caso de Ruanda em 1994 ainda é o melhor exemplo desta última afirmação.]

A situação da Síria vem se tornando cada vez mais caótica desde meados de março do ano passado, quando as manifestações contra o governo começaram, inspiradas pelo sucesso da “Primavera Árabe” no Egito e na Tunísia. Em meio aos conflitos entre os grupos armados e as forças repressivas governamentais, milhares de civis foram (ou estão sendo) mortos, e centenas de milhares indiretamente afetados.

O histórico da crise que está prestes a completar um ano impressiona não apenas por seus números e características, mas também pela visível ineficácia dos mecanismos multilaterais existentes em resolver a questão. [Entenda os aspectos básicos da crise por meio deste texto.]

Com o veto deste sábado na ONU, o assunto continua sem perspectiva de resolução prática a curto prazo e alternativas de resposta da comunidade internacional devem ser repensadas, rediscutidas, reapresentadas… uma importante questão levantada em meio às discussões desta semana no Conselho de Segurança a respeito da Síria foi a seguinte: “Quantos civis inocentes ainda vão morrer antes que este país esteja pronto para seguir em frente?”. Boa pergunta.


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