Líbia: cooperação e/ou Direitos Humanos?

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A cobertura sobre os recentes eventos na Líbia são praticamente uníssonas. É ponto comum nas discussões internacionais que a violência no país é absolutamente inaceitável. Ghadafi, na imensa maioria das vezes, é descrito como ditador, sanguinário, assassino, entre outras tantas alcunhas. Nada que seja novidade, não? Afinal, trata-se da mesma pessoa que comanda o país há mais de 40 anos. Reprimir adversários, enfraquecer rivais e preparar o caminho da sucessão para o seu filho; estavam entre suas últimas prioridades. Até o início da insurreição nos países árabes, a Líbia seguia relativamente estável, prova disso foi o fim das sanções internacionais que ajudaram a impulsionar sua economia nos últimos anos.

Apesar da ampla cobertura pela mídia internacional, ninguém realmente pode afirmar com propriedade o que acontece no país. O acesso a informação in loco é limitado, quase inexistente. Em sua grande maioria, analistas e jornalistas defendem que Ghadafi está levando seu país à guerra civil através de ataques sistemáticos contra rebeldes e a população civil seja por militares ou mercenários. Neste cenário, haveria um grave precedente que exigiria uma ação energética da comunidade internacional. Por outro lado, Ghadafi, e mais recentemente seus aliados diplomáticos, afirmam que a mídia e as grandes potências ocidentais tentam tomar a situação como uma oportunidade para re-colonizar a Líbia para assim se apoderarem de seu petróleo. Ainda sob este ponto de vista, são forças externas que deram impulso as revoltas populares. Ghadafi chegou a mencionar o Al-Qaeda entre tais forças.

Voltemos nossa atenção para os latino-americanos. A reação dos representantes diplomáticos regionais foi em termos gerais low-profile. O Peru tomou a reação mais radical, rompendo as relações diplomáticas com a Líbia. Não que faça tanta diferença para os peruanos, uma vez que os dois mantinham poucos laços econômicos. Além disso, Chávez (presidente venezuelano), Ortega (presidente nicaragüense) e até Fidel (o líder cubano) também se pronunciaram em defesa do mandatário líbio. As outras nações latino-americanas tentaram manter distância, por vezes afirmando seu desagrado pelo sofrimento civil e reafirmando seu apreço pelos Direitos Humanos, sem tampouco tomar atitudes mais extremas.

Qual o limite para a cooperação econômica? Para que servem os Direitos Humanos? De alguma maneira se chocam em algum momento?

Existe um ponto de colisão. No campo empresarial, o conceito de Responsabilidade Social promove o entendimento que escolher aliados éticos e que respeitem direitos estabelecidos é uma das vertentes da construção de uma gestão pensando na sustentabilidade e no desenvolvimento econômico aliado ao social. Seria o mesmo na comunidade internacional ou não se aplica o conceito? O silencio e a moderação de muitos tem forte ligação o modo que a comunidade internacional resolveu lidar com a Líbia. Somente o Brasil tem negócios estimados em 120 bilhões neste país. A Líbia viu as sanções que limitam sua economia serem levantadas e investidores internacionais chegarem ao país. Todos já sabiam desse líder autoritário e de caráter extremamente controvertido, contudo muitos decidiram cooperar com o mesmo.

Quem tem razão? O chanceler venezuelano Nicolas Maduro que via uma Líbia no caminho do progresso e questiona os países (governos do ocidente) que bombardeiam Paquistão, Afeganistão e Iraque, incluindo inocentes, mas nunca são castigados e agora voltam sua atenção para a Líbia? Nas palavras de Maduro “são igualmente assassinos”. Ou todas as outras vozes que vêm um sério problema na liderança de Ghadafi ante suas reações à crise atual?

Evidentemente que toda notícia é alvo de certa interpretação de acordo com a leitura editorial do veículo e por vezes do autor, o que nos gera certo receio para afirmar sobre algo que não vimos com nossos próprios olhos. Podemos, no entanto, discutir as reações diplomáticas. A defesa de Maduro parece sair pela culatra, a partir do momento que assume tal regime como assassino. Como alguém, ainda mais em um posto diplomático, pode tentar defender um aliado que assume como assassino? A meu ver, antes tivesse ficado calado, tal qual os diplomatas brasileiros. Afinal, em nosso caso, não há defesa possível a partir do momento que estabelecemos grandes laços econômicos com a Líbia a partir de decisões de Estado. Assim nossa manobra máxima neste campo é garantir a segurança de nossos cidadãos na Líbia e condenar (ainda que timidamente) a violência. Melhor começarmos a escolher melhor nossos parceiros, no cenário atual simplesmente enfrentamos as conseqüências de cooperar com um líder que outrora fora visto como patrocinador de atividades terroristas; passou a ser aceito pela a comunidade internacional e tudo indica que terminará no ostracismo.

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