Libertos e libertadores

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A temática central das reportagens de veículos diversos de mídia internacional tem sido os fenômenos dos povos árabes clamando por sua liberdade. Regimes ditatoriais vieram abaixo e em outros o povo ainda luta para que isso aconteça (assunto até muito comentado aqui mesmo no blog, para mais clique aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Esses são interessantes casos de povos que visam serem os agentes de sua própria libertação. Entretanto, há ainda aqueles locais nos quais libertadores externos emergem para clamar a liberdade do povo.

Exemplo caro a essa argumentação seria a águia estadunidense que, com sua estratégia de contra-insurgência, eliminaria o foco do terrorismo e logo os afegãos seriam livres. A questão é que o projeto de contra-insurgência não tem ido muito bem, tanto para os olhos da população estadunidense tanto para analistas em geral. Dar a liberdade é muito arbitrário e somente um povo é capaz de saber o tipo de liberdade que busca. Imposições são incongruências históricas e suposições (ou imposições) de princípios.

Isso é o que vemos quando um libertador percebe que sua estratégia não está funcionando. A revista Rolling Stone (a mesma que publicou a entrevista com o general McChrystal que lhe custou sua demissão, clique aqui para ler sobre no blog) em uma interessante reportagem aponta para mais uma incongruência das tropas estadunidenses no Afeganistão. Segundo a revista, tem-se utilizado ferramentas de “operações psicológicas” para convencer senadores da necessidade de envio de mais tropas.

Essas operações são bem conhecidas por utilizarem recursos semelhantes aos da propaganda. O objetivo seria o mesmo, a persuasão, o método e o público-alvo em sua realização é que seriam diferentes. Basicamente, visa-se “a manutenção do elevado moral da população e o desequilíbrio emocional do inimigo” (para mais clique aqui) e é um tipo de estratégia proibida de ser utilizada contra conterrâneos.

Por isso observam-se sempre percepções diferentes dos militares presentes na região e da população estadunidense. É difícil para o maior exército do planeta reconhecer que é hora de voltar atrás e que a missão não foi bem-sucedida. A revista The Economist também publicou um artigo interessante apontando para a desestabilização da economia afegã. Se os soldados são muito queridos em diversas regiões por suas contribuições financeiras às populações locais – para o cumprimento de tarefas diversas –, são repudiados por estudiosos do desenvolvimento que vêem nessas atitudes formas de inibição da reconstrução de um mercado nacional efetivo. Da mesma forma, as atividades de contra-insurgência prosseguem eliminando alvos civis indesejados produzindo mais reações de insurgentes e até mesmo do governo local.

Apesar de se imaginar a existência de tais a práticas, sua divulgação mais uma vez exalta o comportamento de grandes forças frente ao fracasso. Em um contexto de muitos libertos por sua própria conta, a liberdade dos libertadores perde seu eixo estruturante. E, o que se observa, são tentativas desesperadas de atingir a vitória em uma batalha que não parece dar espaço para vencedores.

[Para dois interessantes textos sobre a temática, clique aqui e aqui]


Categorias: Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


2 comments
Anonymous
Anonymous

essa foto do obama é muito massa.........kkkkkkkkk

Duque de Bragança
Duque de Bragança

"Em um contexto de muitos libertos por sua própria conta, a liberdade dos libertadores perde seu eixo estruturante." Muito bom texto Sr. Raphael, sobretudo a frase acima.Em 1961, J.F.Kennedy disse que os EUA tinham um problema em tornar seu poder crível (credible), e o Vietnã era o lugar. Talvez Iraque e Afeganistão seriam os "lugares" para tornar crível o poder americano hodierno. Mas, como o conflito no sudeste asiático, essa guerra começou perdida.Obviamente, não do ponto de vista dos conglomerados petrolíferos, da indústria bélica e dos conservadores e ultra-conservadores adeptos do "Destino Manifesto".