Liberta qua sera tamen

Por

É o que diz a bandeira do Estado de Minas Gerais. Mais comumente, é traduzido como “Liberdade ainda que tardia”. Vinícius de Moraes, em Minha Pátria, optou por “Liberta que serás também”. Qualquer semelhança entre ambas as traduções e os levantes populares no mundo árabe – e que se alastra por outras partes – ou acontecimentos recentes parece muito apropriada. Por definição, liberdade é uma palavra quase indefinível, mergulhada no carnaval da semântica. São as percepções e as ações que lhe conferem um significado, que pode variar com o tempo e o lugar.

Um exemplo ilustrativo, tempos atrás, li uma entrevista feita com uma mulher muçulmana. O entrevistador perguntou-lhe se ela se sentia livre usando uma burca. De maneira contrária ao que imaginaríamos, ela respondeu que sim e se comparou com as mulheres ocidentais. Para ela, as últimas buscam continuamente um padrão de beleza sempre inalcançável, porquanto estão constrangidas por algo. Se são livres, por que ela não poderia ser livre com uma burca?

Na Itália, um caso curioso. A liberdade vem como à procura pela verdade. Os italianos estão conhecendo o seu primeiro-ministro. Sabem agora que nem o Berlusconinho nem o cérebro aprenderam a contar. A prostituição de menores e as fraudes tributárias foram levadas a julgamento. O “Sílvio Santos da Itália”, para recuperar uma analogia do Álvaro, não passa de um pervertido e devedor brincando com o poder e o país.

E o mundo árabe? Aqui, há um problema complexo. O que governantes e governados entenderiam como liberdade, depois de muito tempo de monarquias e pseudo-democracias? No Egito, cai um presidente faraônico para dar lugar aos militares, que, de maneira hábil, não confrontaram os manifestantes, para que estes os endossassem no poder. Chegaram os faraós de amanhã. Por outro lado, se não forem atendidas as demandas sociais, nem resolvidos os problemas econômicos, quem deixou as ruas pode voltar, ainda que uma solução futura seja imposta pela sorte das armas e muitas mortes.

A Fredoom House, em recente publicação na Foreign Policy, já está se perguntando quem será o próximo “tirano” a cair. Listou cinco: King Jong-il, Muamar Kadafi, Robert Mugabe, os irmãos Castros ou Aleksandr Lukashenko. Estão abertas as apostas no cassino das relações internacionais. Na Líbia, os opositores já conquistaram a metade do país, mesmo sob forte repressão. Em Cuba, os dissidentes deixaram suas marcas. Os outros líderes não estão tão preocupados. A China, que não figura na lista, está. Não só pelo Nobel indigesto do ano passado, mas pelo pouso da Revolução Jasmim na mentalidade popular. Falamos de uma “libertação em massa”?

Às vezes, a liberdade vem tarde e é melhor do que nunca. Mas o seu alcance imediato não pressupõe, de modo algum, a manutenção futura. Ela é um direito fundamental: todos nascemos livres e assim queremos permanecer. Seria bom se assim fosse, só que as percepções valorativas e conferem diferentes significados. De todos estes, que pelo menos os povos possam viver uma vida digna e plena, sem se sentirem frequentemente ameaçados, e o que quiserem acrescentar à definição, façam-no para melhorá-la.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


2 comments
Duque de Bragança
Duque de Bragança

"[...] Liberdade - essa palavra,que o sonho humano alimenta:que não há ninguém que explique,e ninguém que não entenda! [...]"Cecília Meireles - Romanceiro da Inconfidência, 1965, p.70.