Libera geral

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Nick Clegg: até ele se surpreendeu.

Na mesma toada de meu último texto, tratemos de eleições novamente. Mas não sem menos comoção. Na terra da rainha (aquela que reina há mais de 20 anos e ninguém reclama) as eleições para Primeiro-Ministro estão animadíssimas com o despontar do fenômeno Nick Clegg.

Explicando-se: na Inglaterra, desde os tempos do liberal bonachão Churchill, o cargo de Primeiro-Ministro é revezado entre os partidos Trabalhista e Conservador. Clegg é o candidato do agora menos expressivo Partido Democrata Liberal, e apesar de concorrer com pesos-pesados como Gordon Brown (Trabalhista) e David Cameron (Conservador), conta com um nível de popularidade elevado como demonstram pesquisas. A razão desse sucesso? Expectativa de mudanças e uma reviravolta no sistema eleitoral britânico: o debate televisionado.

Na última semana ocorreu o primeiro debate político na história da televisão do Reino Unido. A medida surgiu por pressão das emissoras (os debates sempre foram evitados pelos partidos governantes), e segundo os mais tradicionalistas reflete uma “americanização” do processo eleitoral. No Reino Unido o voto também não é obrigatório, mas tradicionalmente não ocorre a “caça aos eleitores”, comum nos EUA, pois boa parte das campanhas se restringia a formação de coalizões e gabinetes, com resultados previsíveis. Mas desta vez, até mesmo os assessores de imagem dos candidatos foram importados do outro lado do Atlântico. A campanha eleitoral passa a exalar um caráter bastante personalista, muito conhecido por este lado dos trópicos, mas de certa maneira inovador na Grã-Bretanha.

Apesar do ambiente meio modorrento e sem muitas réplicas ou gafes, mesmo pelo ineditismo do evento, o debate lidou com muitas questões importantes e fez ressaltar a figura do carismático “azarão” Clegg. O candidato liberal muito provavelmente não conseguirá romper a escrita que vale desde a 2ª Guerra Mundial – há a questão dos diferentes pesos nas regiões eleitorais, como nos EUA. Todavia, disputará por uma parcela significativa dos votos antes destinados aos Trabalhistas (inclusive empenhando-se no incentivo aos votos dos jovens, que são desobrigados), e poderá conseguir prestígio suficiente para forjar uma coalizão futura.

Mais do que a possibilidade de implantar políticas sociais radicais (indo de educação a reforma no Imposto de Renda) e a promessa de expurgar parlamentares corruptos, a preferência por Clegg expõe uma crise de confiança do eleitorado nas políticas desenvolvidas pelos últimos gabinetes, com escândalos e crises institucionais. Com ou sem a vitória dos Liberais, espera-se grandes mudanças na política interna britânica, fundamentadas em uma curiosa e improvável reversão de valores, na qual a “criatura” (o sistema eleitoral norte-americano) passa a influenciar o “criador”.


Categorias: Europa, Política e Política Externa


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