Levanta o topete, bate no peito e diz que tem moral…

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A Exame dessa semana trouxe um artigo do J. R. Guzzo (quem quiser ler clique aqui), chamado: “Não adianta rezar a Santo Obama”.

Como sempre, esse cara é demais, escreve muito bem, e o próprio título do seu artigo já denuncia o que ele escreve. Não adianta ficar esperando que o pacotão do Obama resolva todos os problemas da economia. Uma frase me chamou a atenção: “Aconteceu apenas o que acontece quando se espera um milagre: o milagre não veio”.

De fato, quem esperava que o Obama, com uma canetada, resolvesse tudo, no mínimo, lascou-se. A coisa lá tá preta, e não vai se resolver assim tão logo.

Os EUA tem dois problemas hoje. O primeiro é o déficit orçamentário. Em palavras simples, o governo tem gastado muito mais do arrecada. E o novo orçamento do Obama vai aumentar esse rombo pra 12% do orçamento no ano que vem. Na CBN nesta sexta, o economista Carlos Auberto Sardenberg falou do assunto. Segundo ele, o normal é um país ter um déficit de 3 -4 % do PIB, e qualquer outro país do mundo já estaria quebrado com o rombo que os EUA têm.

Pois é, pessoal. Acontece que uma parte desse buraco ocorria nas contas correntes dos EUA. Ou seja, a grosso modo, eles importavam muito mais produtos do que exportavam. E foi exatamente isso que ajudou a puxar o crescimento do países que criaram um modelo chamado export-led. Ou seja, se industrializaram pensando em exportar. É óbvio que não vou me aprofundar muito nisso, mas os principais países dessa lista são Japão, Alemanha e China. Opa, mas essas não são as maiores economias do mundo depois dos EUA? São, sim, e aí reside o problema.

Com o Great Crash, como Roger Alpert chama a crise na edição de Jan/Fev da Foreign Affairs, esses países serão duramente afetados, uma vez que orientaram suas economias para a exportação, sobretudo para os EUA, que com eles mantinham um déficit. Agora a situação mudou. O Brasil, nesse rolo todo, obviamente se lasca também, porque vinha aproveitando a bonança do comércio internacional exportando commodities agrícolas e minerais para esses países todos.

O segundo problema a que eu me refiro é a taxa de poupança dos EUA. Ela está muito baixa, isso porque o governo, através da política que agora acabou, incentivava o consumo e o crédito farto. Por isso, a grosso modo, ao invés de poupar as pessoas se individavam.

Esses problemas parecem que não se resolverão tão cedo. A poupança não vai aumentar agora porque a tendência é que falte dinheiro. Além disso, o pouco dinheiro deve ser usado para o consumo básico. A questão do déficit, o orçamento do Obama já diz tudo, está aumentando. Com relação ao déficit em contas correntes (importa mais que exporta), por razões óbvias já está diminuindo. Assim, as perspectivas de melhora são pequenas, e não há Santo Obama que dê jeito nisso.

Mudando um pouquinho, mas ainda no mesmo tema, vocês devem estar acompanhando também a choradeira do Brasil reclamando do protecionismo dos EUA. Pois é, de fato eles estão sendo protecionistas, mas acho engraçado o governo que diz que o protecionismo deve diminuir, esses tempos tenha tentado voltar as defuntas licenças prévias de exportação… Elas só não ressucitaram porque a pressão foi enorme.

Agora vai ter a reunião do G-20 na Inglaterra e o Brasil já começou a querer levantar o topete de novo. Lula disse essa semana que o Brasil é o único país do mundo com moral pra lidar com a crise e que vai deixar isso claro na reunião do G-20. Por favor, né?! Não vou me delongar sobre isso, mas, por exemplo, o nosso senado até agora não se reuniu seriamente uma vez, não votou nenhuma medida anti-crise e o povo lá está brigando mesmo por conta da direção das Comissões. Sobre o executivo, há mais lero-lero do que ação prática. Autorizaram empresas com faturamento de até 600 mil reais a usarem o dinheiro do fundo para exportação mas não aumentaram a receita do fundo, aí fica difícil, né? Essa semana saiu outro indicador que mostra que o governo não cumpriu com o meta do superávit primário. Ou seja, está gastando mais do que deveria, mais do que está planejado, e não é com medidas anti-crise, não. Gasta com pessoal, com viagem de prefeito, enfim. Enquanto o Brasil estava bem economicamente e arrecando muito com impostos, isso não era problema, vamos ver agora. Isso é ter moral? Nem aqui nem na China.

Aliás, o Brasil está levantando o topete mesmo, o Amorim quis até indicar alguém para ser representante do comércio dos EUA… Além do mais está ameaçando os EUA de entrar na OMC. Por favor, né. Depois de torrar milhões de dólares com um processo na OMC por causa do algodão, que o Brasil ganhou, até hoje não teve coragem de aplicar o direito anti-dumping contra os EUA. Agora quer ameaçar? O Brasil teve muito tempo durante o governo Lula pra fechar um acordo comercial com os EUA (não estou falando da ALCA), como muitos países fizeram, inclusive o Uruguai, contrariando as regras do Mercosul. Mas não fechou nada nem com os EUA nem com nenhum outro país apostando na rodada Doha que até o mendigo da rua sabia que não ia dar em nada. Os EUA vão respeitar todos os acordos comerciais na Buy American… E a gente não tem nada com eles. A única coisa é o SGP (Sistema Geral de Preferências), que é unilateral e isenta alguns produtos de tarifa de exportação, mas ele vence esse ano e estão querendo tirar o Brasil.

Bom, resumindo. A coisa está feia para os EUA, está feia para o mundo e para o Brasil também. Ao invés de fazer alguma coisa o governo só reclama e diz que o Brasil tem moral, o que a gente sabe que não tem.

PS.: As regras do Mercosul impedem que um país do bloco feche um acordo bilateral com outro país. Assim, o Brasil não poderia fechar sozinho um acordo com os EUA, mas poderia ter negociado acordos de preferência tarifária, por exemplo, como vem fazendo ao conceder isenções de impostos para muitos países…


Categorias: Ásia e Oceania, Brasil, Economia, Estados Unidos


1 comments
Erlon Faria Rachi
Erlon Faria Rachi

Oi AlcirAchei oportuno o post sobre a economia americana e mais interessante ainda o artigo do Prof. Guzzo. Concordo com ele. Não há milagre para resolver esta crise. Os devotos de Santo Obama são os mesmos que esperavam o ‘ippon’ do Collor sobre a nossa inflação.Tudo o que tenho visto até agora: os artigos que tenho lido, as conversas que tenho tido com empresários americanos, as entrevistas que tenho acompanhado, tudo me leva a uma conclusão: Esta crise teve como centro uma regulação financeira frouxa, apoiada em mecanismos de aversão ao risco que não incorporavam a hipótese básica de que o preço de ativos reais nos quais se baseavam podiam variar tanto para cima, como para baixo. Foi ampliada pelo fato das empresas quererem auferir mais lucros na sua tesouraria do que no seu negócio principal.Não vou entrar no mérito do plano de resgate do sistema financeiro ,não tenho competência técnica para tanto, porém aí vão algumas observações: Sim, um déficit este ano desta magnitude é imenso em qualquer lugar do mundo, porém...O total de impostos pagos pelos americanos, como proporção do PIB anda na casa de 28% (OCDE ref. 2007). Por mais que o déficit seja estonteante, a carga tributária é uma das mais baixos níveis da OCDE (perde somente para Grécia, Japão e Coréia do Sul). Há espaço para consertar isso pelo lado da receita, portanto.Este déficit será financiado pelas taxas de juros mais baixas da história dos países desenvolvidos (no caso Britânico, trata-se da menor taxa de juros desde o século XVII). É difícil imaginar um momento melhor para endividar-se.Diferentemente de qualquer outro país do mundo, os EUA não sofrerão crise cambial simplesmente porque detém a moeda de reserva do planeta. Qualquer outro país na mesma situação teria ‘quebrado’ e sido obrigado a desvalorizar sua moeda de forma cavalar.Nesta crise ocorreu o contrário, o dólar valorizou-se contra praticamente todas as moedas, por quê? Porque para cobrir prejuízos na matriz (em dólares) TODAS as empresas americanas tiveram que remeter dólares de suas subsidiárias. Aumentou-se a procura pelo dólar, aumenta-se o preço desta moeda com relação às demais.Além disso, o único obstáculo à expansão da base monetária é o temor da inflação. Em um ambiente de DEPRESSÃO esta restrição desaparece e o governo pode, assim, financiar-se simplesmente imprimindo papel (coisa que o FED já está fazendo).Muita gente tem usado, principalmente no mercado financeiro, uma expressão errônea: “resolver a crise”. O que é resolver a crise? É voltar a fazer negócios como em 2006? Não, esta forma de trabalhar ACABOU. Acabou a era onde era possível fazer mais lucro na tesouraria de uma empresa do que nas vendas totais. ACABOU a farra das agências de classificação de risco, da emissão de bônus reestruturantes, de fundos ‘madoffianos’ que davam retornos financeiros espetaculares.As empresas terão que ganhar dinheiro (pasmem) vendendo produtos e serviços! Bancos terão de ganhar dinheiro emprestando às pessoas e empresas.Neste sentido, a peça central é observar a proposta de orçamento cujo resumo foi enviado esta semana ao Congresso. O orçamento detalhado segue em 60 dias, pois lá o ano fiscal começa em outubro.O orçamento aponta para questões que no longo prazo serão extremamente lucrativas:Aponta para a diminuição no déficit comercial americano. A importação de petróleo corresponde a aprox. 40% do déficit comercial total e os investimentos contidos na proposta orçamentária visam mudar a matriz energética e trazer este número para aproximadamente à metade até 2012.Aponta para a elevação da carga tributária para poluidores: Estimam-se receitas de aproximadamente US$ 700bi com os impostos advindos da nova política de ‘cap’ & ‘trade’.Aponta para a redução das despesas do pentágono, notadamente com os conflitos militares, ao mesmo tempo em que multiplica por cinco a verba do departamento de Estado e os programas de promoção do desenvolvimento.Aponta para uma ampla reforma no sistema de saúde, com o fim de subsídios às grandes corporações privadas que vendem o seguro-saúde, direcionando esta verba para a ampliação do sistema universal. Há muito debate político com relação à reforma do MEDICARE/MEDICAID. Porém estes dois programas representam aproximadamente 25% do orçamento do governo, a segunda maior rubrica do total. Tanto republicanos como democratas concordam que os CUSTOS destes programas necessariamente têm de cair e Obama fez um compromisso político muito grande no ‘semi state of the union adress’ da semana passada: Concluir esta reforma em menos de um ano.Resumo da ópera: Não veio nenhum milagre de Santo Obama em nenhum front, mas cada pequena ação está sendo dada na direção de uma recuperação econômica sustentável.Há vários obstáculos no caminho. A maioria deles é de ordem política. Muitas coisas dependem que outras deem certo. Mas isto é verdade para todas as empreitadas humanas.Não há um plano salvador. Mas dada a carência de seres onipotentes no nosso planeta recentemente, creio que a estratégia e a direção dos passos que serão dados no caminho são ambos animadores.A crise é feia, mas lá a resposta tem sido coordenada e integrada dentro de uma visão maior sobre o que se quer DEPOIS do dilúvio. Neste sentido, pedindo desculpas por contrariar o nosso presidente, a atual administração Obama não deve ‘levar pito’ de ninguém.