Levando na conversa

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Com toda a crise do ISIS e a formação da coalizão dos EUA e amigos no Oriente Médio, um assunto que tem passado ao largo do noticiário internacional é a crise do programa nucelar iraniano. Para quem não lembra, é a grande crise geopolítica da região, mais ainda que a questão palestino-israelense, e envolve o delicado balanço de poder da região. Até a eclosão das revoltas da Primavera Árabe, era o grande tema da política norte-americana na região, e não deixa de ser – mas enfrenta complicações justamente por causa dos efeitos das revoltas, e a aproximação da data-limite para sair um acordo.

Como está a situação atual? O Iraque (antigo inimigo do Irã) tem agora um governo pró-Teerã, e enfrenta problemas com o ISIS juntamente dos curdos e com apoio dos EUA. A Síria está dividida em três, com o governo Assad (amigo do Irã), o ISIS (inimigo de todo mundo) e as forças de oposição espalhadas (que deveriam ter apoio ocidental mas estão à míngua). O Irã tem uma aproximação tímida com os EUA após a eleição de Hassan Rohani, mas ainda é tecnicamente um inimigo pelo apoio a Assad, oposição a Israel, entre outros.

Como o acordo do programa nucelar afeta isso? A negociação, envolvendo os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, além da Alemanha, busca frear o programa nucelar iraniano oferecendo a contrapartida de retirar algumas das sanções aplicadas ao país por conta do mesmo. Seria a chance perfeita de barganhar um auxílio contra o ISIS – como diz a máxima realista, o inimigo do meu inimigo pode ser meu amigo. O problema é que existe muita desconfiança, especialmente nos EUA (onde até tem quem deseje que a coisa azede). O lobby israelense é forte e qualquer aproximação de Teerã seria malvista. Talvez a coisa funcione indiretamente – por meio, por exemplo, da Turquia, que está cada vez mais ativa na questão do ISIS e poderia fazer essa “intermediação” entre os lados. Trazendo o Irã, indiretamente a Síria estaria envolvida nessa coordenação. Um front unido contra o ISIS é irreal, mas a coordenação é possível, e um dos indicativos (ou, mais ainda, fundamentos) para isso seria a confiança resultante de um eventual sucesso nas negociações do programa nuclear.

De fato, o que temos é uma discussão cercada de mistério e, apesar das possibilidades, com um indicador de fracasso rondando as negociações. Caso isso aconteça, além da possibilidade de mais sanções serem aplicadas, perder-se-ia uma chance de ouro de formar uma aliança eficaz para os envolvidos enfrentarem uma das maiores complicações geopolíticas da história recente.

 


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