Laranjada ucraniana

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As coisas andam animadas na Europa Oriental. Se a crise na Grécia tem chamado a atenção do mundo (o que se esperaria da maior crise do Euro até agora), há uma interessante questão se desenvolvendo na Ucrânia, relativa ao pleito presidencial de 2010. A conturbada eleição remete aos idos de 2004, quando da ocorrência da chamada Revolução Laranja.

Na época, Viktor Yanukovich, candidato da situação e simpatizante da Rússia, foi declarado vencedor, mas as eleições foram consideradas fraudulentas por agências internacionais e contestadas judicialmente por um grupo político de oposição, resultando em uma nova eleição da qual emergiram vitoriosos os “revoltosos”, Viktor Iuschenko como presidente e Yulia Timoschenko como primeira-ministra. Teve ampla participação popular e foi considerada uma vitória prática (contra a corrupção) e moral (contra a influência russa no país) da Ucrânia.

Eis que, em 2010, Iuschenko e Timoschenko já não são tão amigos assim e se tornaram rivais no pleito. À sombra dessa rivalidade, acontece o inesperado: Yanukovich, agora oposição, corre por fora, ressurge das cinzas e acaba vencendo novamente. Preterida com o segundo lugar, novamente Timoschenko contesta os resultados da eleição O interessante é que dessa vez observadores internacionais consideraram a eleição legítima, e mesmo assim o tribunal eleitoral ucraniano suspende o resultado da eleição até a apuração do recurso da candidata.

Há semelhanças entre 2004 e 2010? Além da vitória de Yanukovich, provavelmente não. O resultado das eleições de 2010, consideradas legais, representaria um sentimento de insatisfação com o chamado “movimento laranja”, a onda reformista que liderou a impugnação do resultado de 2004 e que inspirou grande otimismo quanto a melhorias na vida dos ucranianos, mas que pouco fez ou pôde fazer pela melhoria dos indicadores sociais e econômicos da Ucrânia no período. A revolução laranja se tornou um abacaxi.

Então por que a formosa Timoschenko estaria contestando esse resultado? Talvez amparada pela posição de situação, teria o poder subido à cabeça? Houve mesmo irregularidades? Se há algo que leve a essas suspeitas pode ser o fato de que Yanukovich ainda é aliado de Moscou, e entre suas políticas estão a reaproximação com a Rússia (em vez de ir atrás da União Européia, como propunha Timoschenko), incluindo grandes projetos no setor energético, e a implementação definitiva do russo como língua oficial do país. Seriam medidas altamente impopulares, mas que talvez representem essa insatisfação com os rumos que o país tomou após 2004 – algo como, se ruim com influência russa, pior sem ela.

Resta apenas esperar pelo desfecho, mesmo por que não há como se declarar taxativamente que houve as tais irregularidades. Apenas se sabe que, com Yanukovich no comando e a volta de relações amistosas, principalmente no campo energético, quem vai estar sorrindo de orelha a orelha é a Rússia.


Categorias: Política e Política Externa


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