Kosovo e os fantasmas soviéticos

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Celebração da Declaração de Independência do Kosovo

Ainda hoje os fantasmas da União Soviética assombram países do leste europeu. Se a região já possuía um histórico de conflito, o fim da Guerra Fria trouxe um ânimo ainda maior para conflitos étnicos e territoriais. Durante todo esse momento histórico, a tentativa de suprimir identidades étnicas em prol de um sentimento de pertença a uma única classe social gerou efeitos desastrosos sobre as antigas disputas entre grupos na região. E como uma barragem em um rio, qualquer pequena rachadura representou a passagem de águas em alta pressão.

Hoje as águas do leste europeu tentam atingir um nível de correnteza normal após o desmoronamento da barragem soviética. Mas, aparentemente, a pressão ainda é alta, e por mais fragmentados – em termos étnicos – que alguns países sejam, podem estar sujeitos a outras disputas territoriais.

O exemplo mais claro é o caso da fragmentação da extinta Iuguslávia. O país que foi composto de cinco grupos étnicos principais e aparentemente divergentes (sérvios, croatas, eslovenos, albaneses, macedônios e húngaros) e a partir de 1990, foi dando origem a outros Estados menores – por meio de declarações de independência que variaram do pacífico ao sangrento. Dela emergiram Croácia e Eslovênia – em 1991 – e a Bósnia-Hezergovina – em 1995 –, após um longo conflito armado. Em 2003, a Iuguslávia decidiu alterar seu nome para República de Sérvia e Montenegro e três anos mais tarde, Montenegro também declarou-se independente.

Contudo, nem todos os grupos obtiveram sucesso na busca por uma pátria. E é nesse ponto em específico, que os tais fantasmas soviéticos ainda estão assombrando. Os kosovares – albaneses que residem na região do Kosovo – sofreram graves pressões desde antes do fim da ordem bipolar, com vias na supressão do exercício de sua cultura. Assim, cresceram os movimentos separatistas e paralelamente, o governo sérvio de Slobodan Milosevic mostrou ao mundo um exercício que viria a ser conhecido como limpeza étnica.

Após certo apaziguamento do conflito entre sérvios e kosovares, com vias em intervenções da ONU e da OTAN na região (que não necessariamente foram bem sucedidas), em 2008 o Kosovo declarou unilateralmente sua independência. E hoje, dois anos depois, o caso ganha força na mídia novamente pela explosão de uma bomba durante protestos de sérvios contra o governo kosovar. O caso teve tanta repercussão que trouxe à tona novamente a discussão entre países que reconheciam a independência do Kosovo e os que não reconheciam, e levou a Corte Internacional de Justiça a posicionar-se sobre o caso.

Desse desenrolar de eventos emerge uma discussão assaz interessante sobre o caráter do atual sistema internacional. Bom, primeiramente, cabe lembrar que muitos países não reconhecem a independência de Kosovo. Dentre eles, países da União Europeia, como a Espanha e a Grécia. Mas cabe lembrar que esses países sofrem do mesmo problema pelo qual a Sérvia passa, minorias étnicas requerendo a emancipação do país em que se encontram. Aí cabe o questionamento.

Será que estamos em um sistema internacional muito diferente do período bipolar em termos de capacidade dos Estados de lidar com o multicultural e com as minorias étinicas? Ou será que observa-se agora apenas a exacerbação de traços que antes eram ocultados pela grande capa do combate ao comunismo ou de pertença a uma mesma classe? Não se pode negar que houve avanços de lá para cá. Mas será que esses avanços foram tão representativos ou eles tem mais peso simbólico do que concreto?

Caberia certa reflexão sobre a atuação de alguns fantasmas do período de Guerra Fria assustando os recém formados Estados da região, já que ainda hoje, mais de 10 anos depois, observa-se a tendência à fragmentação ainda maior do assombrado leste europeu.


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