Jogo dos Sete Erros no Paquistão

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Nos últimos tempos, o foco dos meus posts tem oscilado entre o Oriente Médio e o Sul da Ásia. Espero não cansá-los com outro. Mas, convenhamos, é impossível não tratar de ambas as regiões depois de tantos acontecimentos. Estamos falando de uma vasta epiderme encoberta por conflitos e desgraças (naturais ou humanas, internas ou externas) que interliga dois extremos – com exceção da Turquia. Entremeando-os, disseminou-se um reino da violência às avessas do weberiano, onde o monopólio legítimo do uso da força progressivamente vai se esvaindo das mãos do Estado: grupos ou facções (terroristas ou não, afinal, isto é uma questão de semântica) estão decretando aquilo que é atributo fundamental e indispensável de qualquer nação que se julgue soberana, ou seja, fazer a guerra. Pronto, identificamos o primeiro erro. Opa, mas cadê o Paquistão? Simples, está inserido neste contexto.

O segundo erro: as guerras trazem os seus desdobramentos e, na maioria das vezes, conseqüências nefastas, sobretudo, para a população vitimada. Ainda não se estabeleceu nenhum “cessar-atentado” no Paquistão. Há pelo menos 30 dias, o país é freqüentemente atingido por bombas acopladas a homens ou a carros. Os dois últimos certamente permanecem frescos em nossa memória: na quarta-feira da semana passada, 105 pessoas morreram com a explosão de um mercado lotado na cidade de Peshawar; ontem, outras 35 faleceram após um suicida “falecer” numa fila de uma agência bancária, em Rawalpindi. Deste erro surge o terceiro: quem está cometendo os atentados? Dizem que os insurgentes do Taleban e da Al Qaeda, que agora se fortaleceram. Chama a atenção que os grupos não têm assumido a autoria desses atos (se eles realmente os fizeram), dando indícios de que estão adotando uma nova estratégia. Afinal, contra quem se está lutando: contra grupos sem o monopólio da violência ou contra uma entidade abstrata chamada terrorismo?

O quarto erro: o problema não é o Afeganistão, mas o Paquistão. Este talvez seja o equívoco mais persistente da empreitada norte-americana contra o terror. Clóvis Rossi, colunista da Folha de São Paulo, encontrou-se com Hamid Karzai, atual presidente afegão (recentemente reeleito de maneira misteriosa, como demonstrou o Alcir), há dois anos e nesse encontro o último já destacava a problemática do “vizinho” (ele não mencionou o nome do país). Para Rossi, “parece impossível estabilizar o Afeganistão sem antes (ou ao mesmo tempo) estabilizar o Paquistão. O inverso talvez não seja tão verdadeiro assim.” (Confiram a matéria aqui)

E agora começou um esconde-esconde desenfreado no Paquistão. A população foge e os grupos, também. No noroeste do país, 250 mil pessoas já se deslocaram por causa de uma ofensiva do exército paquistanês contra supostos focos insurgentes. Outrossim, informações que levem à captura de Hakimullah Mehsud, líder do Taleban paquistanês, e outros doze líderes – vivos ou mortos – vale US$ 5 milhões. Guerra virou caça ao tesouro e a fantasmas e segurança é se movimentar para sabe lá onde. Mais um erro, o quinto.

Faltam dois. Que tal este como sexto: a solução para o Paquistão é a construção de uma democracia estável? Ao menos, foi o que disse Hillary Clinton em visita ao país no dia do atentado ao mercado (que bela recepção!). Tudo bem que os Estados Unidos querem melhorar a sua imagem no mundo muçulmano, mas melhorar não é sinônimo de assemelhar. Há valores culturais e concepções diferentes em relação à terra do Tio Sam. E intervir diretamente para a promoção dessa democracia estável pode não ser o mais conveniente, basta observarmos a situação no “vizinho” e no Iraque.

E o último, qual seria? Talvez a inglória da vitória. O que significa vencer em solo paquistanês para os Estados Unidos, Paquistão, Taleban e Al Qaeda? Os norte-americanos avançam no combate ao terror, grande coisa! O governo paquistanês recupera a soberania perdida, isto porque se define como um país soberano. E Taleban e Al Qaeda assustam, provocam, mas estão muito distantes de cumprirem as finalidades políticas para as quais se destinam as ações “terroristas”. E matar o próprio povo não parece enobrecer nenhuma conquista.

É triste, é lamentável e, decerto, há mais incongruências na atual situação paquistanesa, só que este jogo chega agora ao seu final. Infelizmente, os erros persistem. E a esperança cada vez mais se converte numa infindável espera.

(Vejam uma matéria sobre a violência no Paquistão e no Afeganistão aqui e uma entrevista de um especialista norte-americano no assunto aqui.)


Categorias: Ásia e Oceania, Conflitos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


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