Jogo de poder

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Nesta semana, começa a Copa do Mundo de futebol, e como não poderia deixar de ser, o tema que já inunda a mídia nacional acaba dando as caras de um jeito inusitado por estas bandas.


Para entender, antes de tudo, ocorreu que, na última quinta-feira, o ilustríssimo presidente do Sudão, Omar al-Bashir, foi reempossado após as aguardadas eleições gerais do país africano (mais informações aqui e aqui). Bashir consolida sua imagem de moto-perpétuo, uma espécie de super poder controlando o país africano ainda envolto em corrupção e violência sectária – os conflitos, quando não incitados pelo governo, decorrem de sua inépcia (exemplos aqui e aqui). No âmbito da crise humanitária mais grave do continente, as esperanças de um processo de paz, já fragilizado, estão por desvanecer-se com o pedido pelo governo da prisão de um dos líderes “rebeldes” de Darfur. Contudo, a salvação do Sudão pode vir de maneira inesperada, através do maior evento esportivo mundial.

Isso pois o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, havia convidado todos os chefes de Estado da União Africana a comparecerem ao jogo de abertura do evento, entre os anfitriões e o México, nesta sexta-feira, 11 de junho . O problema é que a África do Sul é signatária do estatuto do Tribunal Penal Internacional, do qual, todos sabem, existe um mandado de prisão contra Bashir por crimes de guerra e contra a humanidade. E Zuma deixou claro, apesar do tom vago ao se dirigir ao parlamento: se Bashir pisar em solo sul-africano, será preso. Pois é, a Copa eventualmente vai conseguir o que a comunidade internacional tenta há anos.

E Bashir teria coragem de ir? Bem, há um histórico de proximidade entre ditadores e eventos esportivos. Lembrem de Mussolini, que entre 1934 e 1938 literalmente contratou jogadores de diversas nacionalidades para comporem uma seleção italiana imbatível. Há também a suspeita copa de 1978, na Argentina de Videla, que visitou os vestiários de times adversários dos anfitriões. Quando se trata de um evento que mobiliza um contingente popular muito grande, a honra e o prestígio envoltos no clamor popular caem como uma luva nas pretensões de governantes autoritários.

Bashir, como todo ditador, tem um certo amor-próprio e provavelmente não irá. Todavia, esta é uma Copa que está sendo encarada política e economicamente como um evento de importância para o continente como um todo. Portanto, mesmo não sendo de um país anfitrião, e muito menos tendo time participante, a presença do presidente sudanês entre os chefes de Estado africanos seria uma demonstração de força e prestígio ante os países da região, entre os quais possui muitos aliados, e até mesmo prepotência frente à comunidade internacional, à qual já demonstrou seu desdém por diversas vezes. Resta saber se o presidente aprecia o nobre esporte bretão ou vai fazer a desfeita de recusar o convite oficial do governo sul-africano.


Categorias: África, Política e Política Externa


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