Jardinagem econômica

Por

O noticiário econômico dessa semana é contrastante. Enquanto o mundo se assombra com um recorde histórico de queda de juros do Banco Central Europeu (BCE), no Brasil, andou acontecendo bem o oposto. A comparação desses dois casos é muito interessante pra entender essa dinâmica de taxas de juros, que muita gente vê no jornal e não entende bulhufas. 

A palavra-chave aqui é inflação, aquele mal que as novas gerações nem desconfiam que exista, mas é um trauma pra quem tem mais de 30 anos. Basicamente, existe muito dinheiro circulando e ele perde valor – e os preços das coisas aumentam. Quando em alta, e combinada com baixa produção, desemprego, etc., é um pesadelo, e quando muito baixa também (a chamada deflação, quando há uma queda tão grande de preços que em médio/longo prazo o comércio “quebra” por falta de consumo). 

Ok, e o Brasil e a União Europeia com isso? Aqui entra a taxa básica de juros. É a partir dessa taxa básica que são calculadas as outras, como de cartões de crédito e moradia. O BCE reduziu essa semana sua taxa para um nível histórico de inacreditáveis 0,5%. Significa que é menos atrativo investir nos países do Euro (por que o dinheiro rende menos), mas as pessoas vão colocar mais dinheiro em circulação (já que não compensa deixar parado) e consumir mais. O problema da crise na Europa é justamente uma queda de preços (a inflação está em baixa por lá, cerca de 1,7%), e a redução dessa taxa tem a intenção de… aumentar a inflação! Realmente os problemas de primeiro mundo são muito diferentes dos nossos. Por que aqui no Brasil a taxa de juros aumentou (após alguns anos de queda histórica também, diga-se de passagem), para os atuais 7,5%. O problema é o oposto – para respeitar o limite anual das metas de inflação, de 4,5% (estourado, em cerca 6,59%), o país precisa frear um pouco o consumo e controlar os preços. 

Nada é perfeito. No caso do BCE, os problemas da Europa são muito maiores (como se viu nos protestos violentos de ontem), envolvendo a capacidade de produção e o controle dos gastos do Estado, que mexe no vespeiro do bem-estar social. Apenas reduzir a taxa de juros não teria outros efeitos práticos sem outras medidas de incentivo, ou mesmo de redução da austeridade fiscal. Já no Brasil, o cenário de gastos elevados e inflação galopante é terrível para o crescimento do país. Porém, a opção foi pelo “menos pior”, já que a outra seria valorizar o Real e controlar a inflação por meio da taxa de câmbio – que invariavelmente causaria uma fuga de divisas: se já tivemos um semestre com gastos recordes no exterior, imagine com um Real forte. 

Isso tudo mostra como políticas macroeconômicas são um emaranhado de remédios amargos, posições conflitantes e fatores diversos que tornam um pesadelo a vida dos gestores. Por outro lado, ao vermos as soluções opostas tomadas pelos dois lados para um mesmo problema, confirma-se o velho adágio de que a grama do vizinho é sempre mais verde.


Categorias: Brasil, Economia, Europa


0 comments