Já volta tarde, Fidel!

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No ano passado, a revista Veja publicou uma matéria com o título “Já vai tarde, Fidel!”, referindo-se ao “abandono” do poder cubano por parte do governante. Pois é, agora ele voltou! E Cuba voltou para a América e para o mundo. A Cuba que ainda conhecemos é, antes de tudo, devota ferrenha de Fidel.

Como é do conhecimento de todos, a ilha caribenha foi reincorporada à Organização dos Estados Americanos. Quer dizer, apesar das opiniões divergentes, os países americanos fingiram que o país está de volta à organização no último período de reuniões, realizado entre os dias 3 e 4 de junho. Para os representantes dos 34 países, a decisão de anular o ato que excluía Cuba da OEA foi considerada histórica. Só que eles ocultaram a farsa: um regresso não automático pode ser subentendido também como não desejável e, pior do que isso, como indiferente. E no meio do caminho havia uma Carta Democrática…

Há duas interpretações acerca da volta tardia de Cuba. Por um lado, a conjuntura que propiciou o congelamento das relações com o país se esvaiu faz tempo. Por outro, as forças conjunturais se enraizaram no dia a dia cubano.

Indubitavelmente, no que tange ao valor simbólico e/ou histórico, o acontecimento é um marco para o continente americano e também para o mundo. Nas palavras do chanceler brasileiro, Celso Amorim, “O bom senso continua vivo. A OEA está viva, e a resolução de 1962, morta, sem pompa nem vintém.” Prevaleceu o espírito multilateralista sob a égide de melhores relações continentais. A Crise dos Mísseis de 1962 teve o seu desfecho definitivo e o Muro de Berlim, que caiu há praticamente vinte anos na Europa, está agora caindo na América. Guerra Fria já é coisa do passado. Não se pode acordar e reviver o ontem todas as manhãs. Fidel volta tarde!

Inicia-se um processo de diálogo com Cuba, de acordo com a resolução aprovada em San Pedro Sula (Honduras), solicitado tanto pelo governo cubano como pelos países-membros da organização para que a ilha acate às suas práticas, princípios e propósitos. É bem verdade que essa tentativa de regresso chega tarde.

Ora, todos sabemos que os dois dias de reuniões foram bem conturbados. A Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas) manteve uma postura bastante rígida, considerando inaceitável o preâmbulo da resolução, o que chocou com o negociador norte-americano, responsável pelos assuntos correlatos à América Latina, Thomas Shannon. Por sua vez, a Secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton tinha que cobrar o fim do embargo econômico a Cuba, considerando a condição primária para se restaurar a justiça no continente. Vejam vocês: muito justo quem foi solicitar o fim do embargo em nome da justiça…

Incoerências à parte, mas a nova postura da administração Obama é bastante chamativa mesmo. Lembremos do aclamado discurso que ele fez ao mundo árabe. [Aliás, não percam amanhã o podcast sobre este assunto.] O atual governo norte-americano tem buscado melhores relações com todo o mundo e, nesta empreitada, Cuba está inclusa. Contudo, permitam-me um adendo: por que só agora Cuba volta com tanto vigor na agenda norte-americana? Por que Fidel está morrendo? Por que a conjuntura enseja um novo Plano Colômbia? Há uma nova estratégia política para toda a América Latina?

Ah, é verdade. Esqueci de falar uma coisa: Cuba não parece muito propícia a aquiescer e voltar à OEA. Que estranho, mas isto não significaria uma reaproximação do país com o continente, com o mundo? É, talvez. Mas assim como a maioria dos prisioneiros depois de libertos não conseguem ser totalmente incorporados à sociedade, os países esquecidos também ficam à margem do sistema internacional depois de muito tempo enjaulados. Novamente, Fidel volta tarde!

À semelhança de Eduardo Galeano, Cuba não precisaria entrar no País das Maravilhas para ver o mundo ao avesso, bastaria abrir a janela de seu território. O tempo passou fora das fronteiras do país e congelou o dia a dia de seus habitantes e políticos. A velha ordem estava presente internamente e a OEA perdeu o sentido. Não é fácil compreender a realidade mundial do século XXI com a visão dos anos 60, trilhando um estreito caminho entre a assimilação de novos valores e manutenção de valores tradicionais. Todos devem se lembrar da imagem de Fidel comendo um hambúrguer e tomando Coca-Cola, mas nem assim ele abandonou seus charutos.

Certamente, a reunião da OEA constitui-se como um grande marco, só que muito tardio. Seu valor histórico/simbólico é incontestável, mas não se pode afirmar com tanta exatidão que este valor redundará numa prática bastante contundente. Por enquanto, eu estou dividido entre a expectativa e a indiferença…

Agora é tarde!


Categorias: Américas, Estados Unidos, Organizações Internacionais


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