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O roteiro é típico da maioria dos golpes militares – em nome da “manutenção da ordem”, e por vezes com algum tipo de justificativa constitucional, as Forças Armadas derrubam o governo vigente e instalam um período de transição que acaba se tornando permanente. Isso é o que estivemos vendo no Egito nos últimos um ano e meio, e nessa semana assumiu o tom de brutalidade que se espera de um governo que funciona pela força. Relatos de violência, repressão armada, prisões arbitrárias e assassinatos contra membros da Irmandade Muçulmana em acampamentos de protesto no Cairo dão conta de 150 a 200 mortos e algo em torno de 1000 feridos em apenas um dia. 

No Egito, o exército sempre esteve junto ao poder. Quando ficaram insatisfeitos com Hosni Mubarak, foi pelo seu apoio (ou falta de repressão) que o país pôde experimentar um dos poucos “sucessos” da Primavera Árabe (que já está mais para um “Inverno”). Como abutres, se mantiveram no controle até que as eleições fossem realizadas e no fim das contas nunca largaram o osso. Acontece a mesma coisa que se passou com Mubarak nesse exato momento – Mursi foi derrubado por não ter apoio dos militares, mas agora o país está dividido. Todos (ou a maioria) queriam Mubarak fora; agora, os militares têm seu apoio, mas Mursi também – justamente aquela parcela da população que o colocou no poder, por meio de eleições! 

O papel do ex-presidente é fundamental. Dependendo do ângulo de visão, ele pode ser entendido como um visionário ou como um desvairado. Para alguns, seu papel seria semelhante ao de um Chávez árabe que não deu muito certo – com uma base popular forte e ideias contraditórias, mas que não funcionou justamente por não ter as Forças Armadas nas mãos e pela onda de protestos contra suas políticas. Para outros, poderia ser uma espécie de Mandela para a região – um homem que trouxera paz de modo democrático e por mais que houvesse contestação não chegou a revidar violentamente contra os críticos. A região perde um ilha de estabilidade com sua saída, de um modo ou de outro, e a defesa de seu retorno poderia ser a única saída para um Egito pacífico. 

Não sei se podemos dizer que o Egito está se tornando uma espécie de Síria 2.0, já que as condições são bem diferentes, mas o resultado está parecido. O país ruma para uma guerra civil (ou pior, um massacre), e tende a espalhar incertezas e instabilidade, pulverizando o já estremecido equilíbrio de poder na região. O apoio à Irmandade Muçulmana vai trazer radicais para a cena? O exército vai continuar recebendo mesada milionária dos EUA após essa violência toda? Há algumas semanas uma postagem daqui se perguntava qual seria o papel das Forças Armadas nesse “novo” Egito pós-Mursi. Ainda é difícil precisar se vão assumir o controle como estiveram ensaiando desde a saída de Mubarak, ou se vão abrir espaço para algum títere. Mas, de todo modo, parece que está sendo um belo de um papelão.


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