Isso é Globalização?

Por

[O texto abaixo foi publicado há exatamente um ano aqui no blog, porém – considerando a atualidade da reflexão – segue novamente para discussão e análise. Aproveitem a leitura!]

“E o povo escolheu a Globo, isso é Globalização”. […] Este é o refrão da vinheta intitulada ‘Samba da Globalização’, veiculada por essa tradicional emissora televisiva em rede nacional há anos na época que antecede o Carnaval. O samba, de autoria de Arlindo Cruz, Helio de La Peña, Mú Chebabi e Franco Lattari, está em sua quarta edição e foi muito bem elaborado para os seus fins, não se pode negar. O que impressiona, contudo, é a notável capacidade de manipulação da informação e construção de ideologias existente em tempos modernos.

O termo ‘globalização’ se tornou recorrente em nosso vocabulário nos últimos anos, possuindo múltiplas acepções possíveis. Comumente, este conceito é apresentado simplesmente como “fenômeno ou processo mundial de integração ou partilha de informações, de culturas e de mercados”. Com maior aprofundamento teórico na área de Relações Internacionais, Held e McGrew (2001) descrevem a globalização enquanto um “conjunto de processos inter-relacionados que operam através de todos os campos primários do poder social, inclusive o militar, o político e o cultural”. As definições podem variar em alguns aspectos, porém costumam se complementar de forma geral. Definir, entretanto, globalização como palavra derivada do nome de uma emissora televisiva e apresentar sua abrangência como escolha do povo, tal como indica o refrão do samba supracitado, deve trazer à tona certa discussão.

Milton Santos (2000), importante geógrafo brasileiro, aprofunda a reflexão neste eixo temático ao expor três possibilidades de se enxergar o processo da globalização. Em um primeiro momento, esta pode ser vista como fábula (“O mundo como nos fazem crer”), em que se nota o papel da máquina ideológica, destacadamente dos meios de comunicação de massa: fantasias repetidas acabam por se tornarem sólidas. Qualquer semelhança com a idéia da primeira frase deste post não é mera coincidência…

Em seguida, tem-se a noção de globalização enquanto perversidade (“O mundo como é”), em que se percebe a situação de desigualdade de boa parte da humanidade que sofre com as mazelas do desemprego e da pobreza. Por fim, vê-se, de forma otimista, a possibilidade de se pensar em uma outra globalização (“O mundo como ele pode ser”) – aquela que valoriza o humano, a consciência e a sociodiversidade na construção da história.

A partir da exposição destes pontos, convém perceber o grande poder de influência do conteúdo veiculado pela TV Globo sobre a população brasileira. Esta emissora possui, visivelmente, uma destacada concentração das atenções populares, da audiência geral e da publicidade, o que a torna um meio cultural de enorme destaque no país. O trocadilho feito com o termo “globalização” apenas elucida a forma como este meio pode atender a interesses específicos. (Um artigo interessante sobre diversidade cultural no Brasil pode ser acessado aqui.)

Para finalizar a análise, pretende-se ressaltar o otimismo de Milton Santos para entender que a globalização atual não é irreversível (em todos os sentidos que o termo possa suscitar). A dissolução de ideologias é possível, mas requer esforços coletivos, evitando-se o conformismo generalizado que parece pairar sobre nossos tempos. Nas próprias palavras de Milton Santos, “devemos nos conscientizar de que o mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir. Não há verdades eternas”. Fato.


Categorias: Brasil, Cultura


5 comments
Duque de Bragança
Duque de Bragança

Temos o infeliz costume de incutir no "brasileiro tipo ideal" peculiaridades negativas, tais como desvios de caráter, desinteresse, exígua cultura política e "erudita", entre tantos outros tipos de demérito. Influências de construções discursivas, como as de Mario de Andrade (Macunaíma), ou uma constatação positiva (do que realmente é)? Não ouso responder. Só lembro que as peculiaridades supracitadas são um "fenômeno" observável em diversos países do mundo, na maioria da população - lá a imprensa marrom, programas da tarde, reality shows e futilidades de todo tipo fazem sucesso tanto quanto aqui(se não mais, quando há recursos para consumir esse "produto"). Por que isso acontece? Sugiro que "[...] é a Globalização"!

Jéssica
Jéssica

EEii Bianca Obrigada pela oportunidade!Pode deixar que qualquer dia desses eu enviarei um "post do leitor"!Abraços!

Bianca Fadel
Bianca Fadel

Oi, gente!Sim, de fato, é impossível não assistir a essa propaganda sem se indignar, né Jéssica? Que legal que você faz uma análise parecida! =) Fique à vontade para enviar um "post do leitor" a qualquer momento para o blog (nosso e-mail é: [email protected]), teremos o maior prazer em publicá-lo! Neste caso, a informação é manipulada de tal forma que a grande massa certamente absorve sem perceber o conceito de "globalização" vinculado ao nome da emissora.E o BBB é realmente uma forma lamentável de atrair a atenção do povo para futilidades... não há o que questionar. E, infelizmente, vê-se que a população tem aceitado o status de "observadora" de forma tão passiva que fica difícil criticar apenas a emissora neste caso... trata-se de um problema generalizado. É uma pena que, diante de tantos desafios globais e tantas coisas interessantes a se discutir, o principal assunto do dia constantemente seja sobre o "eliminado" ou "líder" da semana...Abraços e até mais!

Jéssica
Jéssica

EEii BiancaEssa semana vendo a propaganda na TV eu fazia uma análise parecida com a sua,aí eu abro a página do blog e tá o post sobre o assunto(telepatia!).Então, vale lembrar que a emissora em questão além de ter poder de influência sobre as pessoas também dá palpites em algumas questões politicas(em periodo eleitoral ela não é nada imparcial).Quanto ao BBB é lamentável que pessoas que só apareceram por uns dias na TV confinado em uma casa com pessoas desconhecidas consigam levar milhões de pessoas ao delírio( é impressionante o assedio que se tem sobre os EX-BBBs, tanto de pessoas,eles tem até fã clube,quanto ao das proprias emissoras de TV!)ParabensAbraços!!

Harley
Harley

Bianca Fadel,Muita oportuna sua analise sobre a Emissorra Globo.Seus programas e novelas são verdadeiros destruidores dos valores das famílias.Existe desvalor maior que o BBB? Além,de enganar a sociedade abertamente, arrecadando milhoes com os famosos paredões?Parabéns,Harley