Iraque, que ira, queira?

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Só pelos últimos acontecimentos, poder-se-ia produzir mais uma aula de biologia no Oriente Médio, mas vamos mudar de matéria, fiquemos nas Relações Internacionais por hoje e, mais especificamente, concentremo-nos naquilo que engendrou a disciplina no alvorecer do século XX: a antinomia guerra e paz. Evidentemente, ressalta-se que os conceitos também sofrem a ação do tempo: da Primeira Guerra Mundial aos atuais grupos terroristas, muita coisa mudou no modo de guerra e, por conseguinte, nas perspectivas para a paz.


Que tal um anagrama? Vamos jogar com as palavras. O país é o Iraque. A atual guerra no país incita a pergunta: que ira? Ira para com as tropas norte-americanas, a corrupta administração iraquiana, os países estrangeiros que financiam os insurgentes terroristas, o fanatismo, o extremismo, o xenofobismo? Na junção das palavras da primeira pergunta, temos uma nova: queira. Pois é, queira o Iraque ser Iraque novamente, isto é, ser um país.

Outubro está quase indo embora, mas o Dia das Crianças perdura. As brincadeiras continuam, só que estão perdendo a graça. Como ainda não inventaram o Dia dos Adultos, eles o roubam das crianças, ou agem para relembrar os velhos tempos de infância. Desta vez, dois carros-bomba explodiram no Iraque, matando mais de 150 pessoas. Foi o pior atentado dos últimos dois anos. Uma tragédia! Isto porque o país estava ficando mais seguro (confiram esta interessante matéria), mas resolveram pentelhar. E quem foi responsável por tal ato?

Até agora, ninguém assumiu a autoria. Uns dizem que foi a Al Qaeda ou partidários do partido Baath, do ex-ditador Saddam Hussein, outros incriminam o suporte dado ao terrorismo pelo Irã, Arábia Saudita e Síria. O fato é: inventou-se uma nova concepção de guerra, não mais travada por exércitos regulares em campos opostos, mas batalhas entre inimigos sem faces, lutando até mesmo de modo precário e fazendo do corpo uma arma mortífera. Se Clausewitz outrora argumentou que a guerra era “a continuação da política por outros meios”, hoje o terrorismo se apropria desse mote. A disseminação do terror e da violência tem um propósito, embora os meios empregados sejam repugnantes.

E o arauto da paz, Barack Obama, o que disse? Que as bombas são inaceitáveis e, é claro, que atrapalham o progresso iraquiano. Ademais, os atentados sobrelevam a fragilidade do governo do país em garantir o monopólio legítimo do uso da força (conceito weberiano) e, conseqüentemente, zelar pela segurança de seus cidadãos. E é bom o Iraque ficar esperto, pois o prazo para a presença das tropas norte-americanas está expirando: uma Copa do Mundo, uma Olimpíada e adeus!

Aliás, pode-se até questionar o quanto os Estados Unidos estão ajudando o Iraque, ontem mesmo, o governo iraquiano solicitou a ajuda da ONU para investigar quais os países estrangeiros estão dando apoio aos insurgentes internos. Apenas para recordarmos: já que Saddam Hussein não dispunha de armas de destruição em massa, a alegação para sustentar a atual guerra no Iraque foi a prevenção e a necessidade de instaurar um regime democrático no país. Ora, guerras preventivas – ou seja, agir antes que o inimigo o faça – não são novas na história da humanidade e as mentiras também não. Da mesma forma, há aqueles que argumentam que a democracia é um imperativo para a paz. Dançam os conceitos no ritmo do tempo.

O Iraque trava agora a sua batalha para desfazer o anagrama e construir a paz sobre os escombros da guerra. E, decerto, como conclusão deste post, poderíamos extrair as considerações finais do livro de Luigi Bonanate intitulado A Guerra: “Qual país nasceu pacificamente? E, se são várias as concessões exigidas pela paz, o resultado então será a guerra.”


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