Irã(fobia)?

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O Irã já foi assunto diversas vezes na Página Internacional. Muito já foi dito e analisado com relação ao país, sendo o programa nuclear iraniano um tema recorrente. Por um lado, as principais potências temem a possibilidade do desenvolvimento de armas nucleares, por outro os iranianos questionam a legitimidade da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Tal qual no recente caso da Líbia, são poucas as vozes que se levantam com o objetivo de defender as escolhas do Irã.

Mahmoud Ahmadinejad é uma das figuras mais controversas do sistema internacional. Entre suas declarações estão a negação ao Holocausto e a afirmação que não existe homossexualismo no Irã. Uma das principais críticas a recente política externa brasileira vinculava-se justamente a aliança com o Irã, o que incluía um apoio velado no campo dos Direitos Humanos. Em palestra do cônsul iraniano no Equador, tive a oportunidade de escutar argumentos sobre as mais variadas temáticas. Justo de um argumento do diplomata vem minha pergunta, existe uma fobia ao Irã?

O cônsul apresentou os princípios norteadores da República Islâmica do Irã, defendeu alguns eventos como formadores do atual contexto no Oriente Médio, comentou sobre a constante tentativa das grandes potências em influenciar o destino regional, entre outros. Contudo, o ponto alto na sua exposição foi a defesa da existência de uma campanha midiática com o intuito de prejudicar o país, que termina por ensejar uma espécie de aversão aos iranianos por parte dos ocidentais. Tomando o exemplo recente da primevera árabe, mencionou a tentativa de comparar as revoltas em tais países com os movimentos da oposição iraniana após as eleições de 2009. Em sua visão, há na verdade uma clara semelhança com a revolução islâmica de 1979. Contudo, a primeira comparação tem o intuito de gerar mais pontos de vista negativos quanto ao Irã.

Passando para uma análise dos principais países do sistema internacional, o cônsul trouxe várias questões. Qual o interesse das grandes potências no Oriente Médio? Que governos ocidentais estavam apoiando estes mesmos governos árabes que agora são apontados como autoritários e corruptos? Quem apoiava Saddam Hussein? Para que uma intervenção militar no Oriente Médio? Isso já foi também mencionado aqui no blog, realmente são poucos os países que tem a consciência limpa para falar de seu papel no Oriente Médio. Além disso, o representante do governo iraniano ainda vê uma grande disparidade entre a opinião das ruas e o noticiário ocidental. Em sua visão, os árabes aprecia o posicionamento confrontivo do Irã para as grandes potências. Por último, re-afirmou os intuitos pacíficos do programa nuclear de seus país, tal direito nunca se negociará, em suas próprias palavras. As preocupações de parte a parte nesta temática poderão estar na pauta de uma negociação. Terminou sua defesa com uma nova pergunta. Houve esforço significativo para a redução de armamento junto aos países que dominam a tecnologia nuclear?

Uma boa parte dos argumentos que vi apresentados agrega ao debate. Também enxergo uma dualidade das grandes potências na atual crise no mundo árabe, as políticas que tiveram apoio dos países centrais na região terminaram por alimentar regimes lesivos ao povo. Os mesmos que agora caem e deixam os líderes mundiais sem tantos argumentos para defender condutas anteriores. A lembrança da revolução islâmica de 1979 tenta refrescar a memória de todos, no sentido de criar um paralelo com as atuais movimentações em diversos países. Um resultado similar ao do Irã para a primavera árabe provavelmente não está nem nos piores pesadelos das grandes potências, o que seria da região e do mundo se regimes não alinhados ao Ocidente se espalhassem por meio de revoltas populares? Voltando a pergunta inicial, é difícil cravar que existe essa tal fobia ao Irã. A cobertura midiática não é favorável ao país, porém é alimentada por fatos e pronunciamentos de suas autoridades. Mais que isso, a falta de transparência e as constantes críticas a AIEA nunca vão gerar um opinião pública ocidental favorável ao Irã. Ambos os lados (Irã e Ocidente) tem seus pontos negativos, não se pode pautar sua defesa simplesmente na acentuação das falhas do outro lado.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


3 comments
Duque de Bragança
Duque de Bragança

Obrigado pela consideração.Aproveito a oportunidade para congratular o blog, pela periodicidade das informações, consistência de conteúdo e profundidade analítica de seus membros. Parabéns.Em resposta ao Sr. Giovanni, assim que tiver alguma luz que valha a pena ser publicada, mando uma contribuição. Obrigado pelo convite.Atenciosamente,D.B.

Luís Felipe Kitamura
Luís Felipe Kitamura

Estimado senhor Duque de Bragança,Em primeiro lugar, muito obrigado pelo comentário e seu constante interesse nas discussões propostas em nosso blog. Creio que é um caminho extremamente válido a busca de informações a partir de pontos de vista distintos. O Irã talvez seja um dos melhores exemplos disso, tal qual a recente crise no Oriente Médio. Nos últimos tempos tem sido uma missão difícil frente ao monopólio de certos veículos de comunicação, porém fica a reflexão. Um abraço,

Duque de Bragança
Duque de Bragança

Muito bom o texto Sr. Luís Felipe!É notório que estamos, sobretudo no que tange às informações exteriores, ligeiramente à mercê dos conglomerados de mídia europeus e estadunidenses. Nossos olhos e mentes fitam o mundo conforme às vicissitudes das lentes da AP, France Press, Reuters, Grupos Fox e Warner, entre outros. E, se todo sujeito enunciador de um discurso imprime seu prisma e análise sobre um fenômeno, como quer José Arbex, toda informação deve ser contemplada reflexivamente - como o senhor propôs. No que tange ao Irã, é preciso evitar uma "demonização" excessiva sobre a política externa, como sugeriu H. Morgenthau (no caso dessa citação, o autor se referia à agenda exterior dos Estados Unidos como um todo) Uma sugestão válida também para nossos julgamentos.