Investimentos e…

Por

Um brasileiro otimista com o futuro do país abre o seu jornal, e entre as notícias de estagnação econômica e social, deveria se incomodar ainda mais com outra informação: mais uma vez não fomos além dos últimos lugares no ranking mundial da educação. A péssima qualidade educacional em nosso país talvez seja o maior símbolo do pessimismo em relação ao futuro. Ainda mais em um dos países em que é mais forte a crença na educação como caminho quase exclusivo para uma sociedade melhor.

Foi com o discurso de um “futuro melhor” que recentemente o Planalto, especialistas em educação e grupos organizados pressionaram o Congresso para a aprovação da Lei dos Royalties do Petróleo, que destinou 75% dos ganhos com a exploração desse recurso natural para a educação. Isso significa que em dez anos, o montante deve chegar a 112 bilhões de reais a mais investidos na educação por ano. Isso elevará o país a ser o detentor do terceiro maior orçamento do mundo na área, atrás apenas das superpotências EUA e China. 

Por mais positivo que seja esse aumento no investimento, é bastante perigosa e incompleta a crença de que a somente o orçamento disponível seja suficiente para a evolução da educação. Exemplos de países que mudaram da água para o vinho os seus sistemas educacionais provam que tal “milagre” vai muito além de uma grande quantidade de dinheiro disponível, mas sim de uma organização baseada em um tripé, que envolve a qualidade das políticas públicas, do investimento empresarial privado e da sociedade civil.  

O tripé organizacional a que me refiro é bastante evidente nos exemplos de alguns países que por muitas vezes elogiamos, mas quase nunca copiamos. Na Coreia do Sul, o “milagre” asiático de desenvolvimento meteórico, a educação é apontada como responsável pela escalada econômica do país, não o contrário. Investimento em capital humano e social, algo bastante desconhecido pelos lados de cá, foram mais importantes do que realocação de recursos do orçamento ou de investimentos financeiros.

O país asiático viveu 20 anos de reorganização da política industrial, dos programas de formação dos profissionais da educação e de movimentação da sociedade civil. Vale lembrar que a revolução educacional foi o principal combustível para o desenvolvimento econômico do país e não o oposto, como parece ocorrer no novo “Brasil do Petróleo”. Portanto, os sul-coreanos não tinham ao menos recursos econômicos para elevar gradativamente o investimento em educação, mas usaram a educação como trampolim para alcançarem novos investimentos.  

Já nos Estados Unidos, o queridinho dos que sempre argumentam que “lá é diferente”, para realçarem nossas dificuldades, a educação pública é tão importante para a noção de meritocracia e igualdade de oportunidades do que qualquer outro dos maiores símbolos do liberalismo. Uma rigorosa qualidade de gestão, um senso de responsabilidade social aguçado dos empresários regionais e uma forte contribuição da comunidade, que vê na escola um dos maiores patrimônios públicos, são os responsáveis pela educação gratuita e de massas, com muita qualidade. 

No Brasil, ouso dizer que faltam todos os elementos desse tripé:

Temos uma visão que o dinheiro por si só salva o que é em todos os sentidos péssimo, como se as notas de reais fossem planejar a questão pedagógica, dar aula às crianças e formular as políticas. Passado o frenesi pró-educação e as crenças no royalties do petróleo como salvador da pátria, observamos que não houve investimento na formação de profissionais de gestão escolar e de professores.

Em nosso país implantou-se a cultura de que o professor mais experiente da escola deve ocupar o cargo de direção, independente do seu conhecimento de gestão e de pedagogia. O que observamos é uma escola incompetente, ineficaz. Não há cursos de gestão escolar no país, não há respeito pelos pedagogos e a elaboração de seus planos, não há continuidade na formação para professores, muitas vezes com conhecimento insuficiente para ministrar aulas. Mesmo assim governo, grupos organizados e parte da sociedade civil teimam em afirmar que a educação tem como único problema a questão salarial do professor.

Então aumentamos os salários com a nossa salvação “milagrosa”, os royalties, e esquecemos dos tais problemas da gestão escolar. Aproveitamos e também nos esquecemos de que do que adiantará alguém se formar engenheiro em uma região sem industrias. A desigualdade regional no país centraliza as oportunidades em um só lugar. No caso da minha formação, por exemplo, só há vagas de empregos nas cidades de São Paulo, Rio de janeiro e e Brasília. Cientista Social no nordeste ou no interior vira pesquisador ou professor por necessidade. Isso se a universidade da região oferecer o curso. Mas alguém pensou em utilizar parte dos royalties para o desenvolvimento econômico de determinadas localidades? Algo que por tabela tornaria possível a revolução educacional que o projeto de lei prega. Claro que não!

A propaganda pelos 100% dos royalties para a educação, de tão bonita, cegou o governo e defensores da educação. Esqueceram completamente que ela não caminha por si só. Pode ser até a área mais bonita, a mais importante, mas necessita do desenvolvimento simultâneo de outras.

Por fim, como muitos outros espaços públicos, alguns agora explicitados pelos “rolezinhos” da juventude da periferia, o espaço da educação reflete um fenômeno comum ao Brasil, a distância entre a ocupação dos espaços públicos e quem deveria ocupá-los. Hoje não há nada mais distante da comunidade do que a escola. Se nos EUA é a “segunda casa da comunidade”, no Brasil é espaço obrigatório para os pais, quase uma cadeia aos alunos. Um mal necessário como uma injeção a quem está doente. Não há ligação entre escola e mercado de trabalho, escola e esporte, escola e cultura ou escola e lazer. Há a escola, instituição arcaica, e os alunos.

Tudo isso, de forma bastante dolorosa, prova que a ineficiência do nosso país na educação é gerada por problemas muito maiores do que os investimentos, mas sim por uma cultura educacional falida. O sucateamento da infraestrutura escolar é bastante evidente, mas está longe de ser o único ou muito menos o principal problema dos baixíssimos resultados em que vivemos. Estamos na Era do desconhecimento técnico, pedagógico, social e econômico da importância da educação, mas mesmo assim culpamos o dinheiro, o crápula perfeito. 

O Brasil é o país em que os problemas políticos são tratados com crenças em fórmulas mágicas. “A corrupção seria solucionada com um presidente honesto”, “a polícia por si só pode acabar com a violência”, “basta fechar o Congresso para o fim dos problemas do povo” etc. O que faremos quando a infinidade de investimentos na educação falharem, ou se a evolução que esperamos for extremamente mais lenta? Vamos novamente culpar a corrupção ou os políticos, e ficarmos com as velhas frases de comparação entre Brasil e EUA ou Coreia do Sul, de que “aqui não é como lá”? Não mesmo, lá houve muito menos negação dos problemas reais que deveriam ser enfrentados, ou de preguiça e enganação em defender que somente dinheiro de royalties seriam o suficiente para uma revolução. Aos que sonham com tal revolução educacional, ela se ocorrer será muito mais longa do que os 20 anos necessários à Coreia do Sul, graças ao desenvolvimento estratégico de diversas áreas e ao trabalho duro. 

A defesa por uma educação melhor no país deve cobrar uma reorganização generalizada muito maior do que cifras destinadas ao investimento na área. Deve ser alicerçada no tripé que forma os grupos sociais interessados na melhoria e no desenvolvimento do país: a sociedade civil, o empresariado e a gestão escolar, que envolve desde formuladores de políticas públicas até professores. Caso não enxergarmos tais necessidades, o petróleo vai pelo ralo. Afinal, notas de papel não dão aulas, não se interessam, não constroem o futuro. E nem tem essa obrigação.


Categorias: Brasil, Economia, Polêmica