Invertendo papéis?

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Diante da severa crise econômica que enfrenta Portugal surgiu espaço para uma brincadeira. Será que o Brasil poderia salvar Portugal? Talvez Portugal pudesse retirar-se da União Européia e ser anexado ao Brasil, não?

Todos conhecem bem nossa história compartida. Portugal, em seus áureos tempos, foi uma das grandes potências mundiais. Entre os séculos XV e XVI, alguns países europeus lançaram-se aos oceanos com o objetivo de descobrir novas rotas à Índia e novas terras. Tal período foi denominado Era das Grandes Navegações. Neste contexto, Portugal logo encontrou destaque devido a diversas condições internas favoráveis. Tais aventuras surtiram efeitos, muita riqueza e colônias afluíram às terras portuguesas. O Brasil foi parte do esplendor português.

Desde a independência brasileira, muitos fatores levaram a um certo distanciamento entre (as antigas) colônia e a metrópole. Os ingleses, os norte-americanos e os sul-americanos foram os principais brasileiros parceiros desde então. Portugal, antes detentor de exclusividade comercial, econômica e política junto ao Brasil, viu seu papel diminuir nos rumos tomados pela terra que já acolhera sua família real. Enquanto os brasileiros viram surgir um renascimento político, econômico e social; Portugal teve seu posto de potência revogado ante aos países de crescente influência e poder em sua região, marcadamente França, Alemanha e Reino Unido. De certa maneira, Portugal nunca mais voltou a gozar do prestígio de outrora.

Voltando nossa atenção para o capítulo atual da história, fica evidente que os países tiveram seus papéis fortemente alterados. O Brasil apresenta uma economia pujante, um papel de protagonista internacional e uma governança consolidada. As grandes potências só fazem corroborar esta premissa, à medida que aumentam o papel da diplomacia brasileira nas principais temáticas internacionais. Portugal, em caminho contrário, viveu anos de baixo crescimento econômico, políticas fiscais desreguladas; que por fim culminaram no seu atual estado, um país forçado a buscar medidas de austeridade a custo de seu bem-estar social. Mais que isso, Portugal está a um passo de buscar ajuda internacional para mitigar os efeitos mais urgentes de sua crise. Dilma, em visita a Portugal durante esta semana, discutiu a possibilidade do Brasil entrar em cena e ajudar nossos “irmãos portugueses”.

A ironia da brincadeira lançada pelo jornal Financial Times reside nesta inversão de papéis. Brasil está mais próximo do papel internacional da metrópole portuguesa do século XVI, ao passo em que Portugal aproxima-se do cenário de crise que viveu sua ex-colônia por tantos anos. As crises econômicas brasileiras nos forçaram a jogar pelas regras do jogo. Nossa submissão política nos levou a décadas de ostracismo e papel diplomático restrito. O exemplo clássico de nosso papel como “país do futuro” veio por meio das medidas de austeridade impostas por credores internacionais. A libertação simbólica do Brasil ocorreu com o fim da dívida junto ao FMI. Frente à atual crise, eis que Portugal escuta de Dilma “podemos ajudar, desde que se apresentem garantias de pagamento”. Soa familiar, não?

Quem quer ajudar Portugal? Mais que isso, quem vai ajudar os portugueses comuns que sofrerão com as medidas impostas para controlar a crise? Caberá ao próximo governo português limpar o terreno, impor políticas pouco populares e enfrentar a fúria popular. Os antigos governantes – não só em Portugal – que construíram o caminho para a crise e deixaram seus países em situações lamentáveis, vestem discretamente a camisa da oposição, esperando que na próxima eleição o quadro se inverta a seu favor novamente. No meio de tudo isso, o Brasil seguirá desvendando os desdobramentos de seu novo papel como “metrópole”.


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