Intervenções humanitárias desumanas?

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Na Líbia, a guerra em andamento permanece como uma incógnita e já começou a rolar o boato da transição: pode mudar qualquer coisa, exceto Kadafi. É o que desejam os governistas, não os rebeldes. E os interventores, o que querem? Numa eventual saída do coronel, a Uganda já lhe ofereceu refúgio. Mas, não muito longe dos atuais focos de conflito – e também em conflito –, está a Costa do Marfim.

[Acompanhem nossos outros posts sobre a situação na Costa do Marfim: 1 e 2. Lembrando também que este ano o The Economist trouxe um “apelo” para não nos esquecermos deste país. Confiram aqui.]

Lembram-se do que aconteceu nas últimas eleições do país? O presidente perdeu, mas continuou no poder, recusando-se a admitir a vitória de seu opositor, mesmo reconhecida pela comunidade internacional. Resultado diferente não se poderia imaginar: Alassane Ouattara e seus aliados vem tentando depor Laurent Gbagbo, e, há duas semanas, contam com o apoio da ONU, em particular, da França. Outra vez, a imposição da vontade passa a ser conduzida por meio de ações militares. Outra vez, o argumento é para proteger os civis e evitar uma carnificina. A lembrança da Líbia de imediato vem à mente.

Em pouco mais de duas semanas, duas intervenções são nutridas basicamente pelos mesmos motivos e conduzidas da mesma forma (militarmente): a favor da parte “mais fraca”, os rebeldes líbios ou os vitoriosos oposicionistas costa-marfinenses. Duas intervenções em prol da humanidade, com um senso quixotesco de moralidade e altas doses de interesses próprios. Em um interessante artigo, George Friedman contestou o sentido “imaculado” das intervenções humanitárias, que são pretensamente neutras e acabam decidindo o destino das nações, para bem ou para mal. Para o autor, não quer dizer que os fins dessas intervenções não sejam benignos e morais, mas que eles não são alcançados, cedendo lugar para os interesses, os quais são mais duradouros.

O que começou como uma intervenção, sob o pretexto de proteger vidas humanas em perigo e evitar um derramamento de sangue elástico, pode se degenerar numa guerra civil conturbada. No caso da Costa do Marfim, a situação uma hora fala que se rende, outra, fala que não. Daí, são inevitáveis as memórias dos confrontos sangrentos de 2002-204, que levou a uma missão de paz (UNOCI), pois se estima que os próprios aliados de Ouattara já tenham cometido 800 assassinatos, enquanto que Gbagbo promete vencer. Na Líbia, até os civis que eram supostos proteger acabaram “acidentalmente” mortos nas manobras da OTAN.

Particularmente, em ambas as intervenções, chama também a atenção o protagonismo francês, talvez como uma válvula de escape para mitigar o crescimento da direita no país ou vender aviões para o Brasil. De maneira mais geral, José Fiori, em entrevista à Folha de São Paulo ontem, trata de um novo colonialismo na África – principalmente da porção norte –, capitaneado pelos norte-americanos e europeus, buscando recursos estratégicos, com a primazia do petróleo.

Paradoxalmente, nestes dois casos, as intervenções humanitárias são desumanas. A moral se sustenta com as armas e os interesses, com a promessa de lucros. As pessoas morrem, líderes caem e os países ficam à mercê de um destino que lhes pertence. O fim da moral e a pura prevalência do interesse é uma mera questão de tempo.


Categorias: África, Assistência Humanitária, Conflitos, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


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