Injustiça histórica

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Maquiavel é o autor de uma das frases mais conhecidas da História – e frequentemente utilizada sem escrúpulos para justificar atos inconsequentes –, qual seja “os fins justificam os meios”. Dado seu período histórico e o objetivo político de sua obra, tal afirmação é carregada de uma ideologia relativista no que concerne à ética e à moral, provocando bastante discussão até os dias de hoje.

No contexto das Relações Internacionais, talvez os Estados Unidos tenham sido o país que mais vezes se utilizou deste lema para justificar suas ações. Hoje, mais uma polêmica vem à tona e suscita debate neste âmbito: está comprovado que médicos norte-americanos realizaram verdadeiros experimentos com milhares de “cobaias” guatemaltecas durante a década de 1940, camuflando os meios utilizados nos testes e provocando a morte de 83 pessoas, inoculadas com vírus de doenças sexualmente transmissíveis – notadamente a sífilis e a gonorreia.

Ocorre que este debate se iniciou em novembro do ano passado, quando o presidente da Guatemala, Alvaro Colom, divulgou informações a este respeito e classificou como “crime contra a humanidade” a atitude dos cientistas norte-americanos. Ao que consta, os guatemaltecos que participaram da pesquisa não foram informados acerca do procedimento (que consistia exatamente na inoculação dessas doenças venéreas), deixando clara a intenção dos cientistas de camuflarem os meios utilizados. O fim “recompensador” seria a verificação dos efeitos da penicilina no combate a este tipo de doença.

Até que ponto o espírito maquiavélico pode ser aplicado neste caso? Evidentemente, quando se trata do respeito à vida humana, não há “fim” que justifique “meios” criminosos, e isto foi reconhecido pelo próprio presidente Obama, ao instaurar uma comissão presidencial de bioética para averiguar essa injustiça histórica. O relatório final deve ser publicado apenas em setembro, mas as avaliações preliminares indicam que realmente os dados apresentados pelo presidente da Guatemala no ano passado são verídicos. Verídicos e revoltantes.

Revoltantes no sentido de que esta polêmica reforça a perspectiva predominante naquela época (ou será que até hoje?) de claro preconceito em relação aos povos ditos “subdesenvolvidos”. O que mais pode explicar o fato de essas pesquisas terem sido realizadas dessa forma em território guatemalteco? Será que aquelas vidas teriam menos valor que as vidas de norte-americanos? Pelo menos na visão dos cientistas (ir)responsáveis à época, isso parece ser nítido.

Depois de tantos anos, eis que o próximo desafio (mais um!) ao presidente Obama será pensar, efetivamente, em meios para compensar tamanha injustiça histórica cometida pelos Estados Unidos em relação à Guatemala… será que ainda é possível reparar, de alguma forma, os danos?


Categorias: Américas, Estados Unidos, Polêmica


3 comments
Bianca Fadel
Bianca Fadel

Obrigada por seu interessante comentário, Victor! De fato, os Estados Unidos demonstram cada vez mais discrepância entre os ideais preconizados e as ações praticadas... este caso relacionado à Guatemala só deixa isso ainda mais claro.Mas será que essa visão se restringe aos norte-americanos? Cada vez mais me decepciono ao perceber os rumos a que as potências mundiais em geral estão levando o mundo a chegar.Exatamente o que você citou de descaso com os direitos humanos, além da visão sempre competitiva ao invés de cooperativa nas mais diversas questões em que o mote deveria ser o apoio mútuo. Enfim, a ver como as Relações Internacionais se desenvolvem nos próximos anos, né?Abraços! Até mais!

Victor Uchôa
Victor Uchôa

Tive uma grande professora de Teoria Política, que sempre citava as palavras do professor latino Antônio Cândido sobre a obra de Maquiavel e as verdades que ela revelava sobre o ocidente. Dizia ela que Maquiavel havia "cravado um punhal no ocidente". Certamente agora à luz das ações americanas durante todo o século XX, junto as guerras contra o "terror", o desrespeito crescente aos direitos humanos, o apoio a tortura, a falta de lei e até mesmo à verdade, vindo dos maiores representantes do nosso lado do planeta, me faz acreditar que estão querendo finalizar de vez com os ideais que deveriam nos alicerçar.