Inflamável

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Ser um político voltado para as massas não é tarefa fácil. Evo Morales, presidente da Bolívia, parecia surfar em ondas de popularidade à medida que adotava políticas favoráveis à grande parte da população mais pobre do país. Em grande medida, sua postura agressiva em alguns temas foi fruto do grande apoio popular que gozava o líder de esquerda. Quem não se lembra da disputa com a Petrobrás? E da perseguição de adversários políticos?

De acordo com previsões de especialistas, a Bolívia encerrará o ano com um déficit fiscal de 870 milhões (4.7% de seu PIB), somado à crescente inflação e à falta de alguns itens alimentícios. Dois exemplos de escolhas infelizes do governo foram a crise na produção de alimentos e a lenta expansão no setor petroleiro. No primeiro caso, uma tentativa de limitar as exportações e estabelecer preços-base frente à diminuição da produção levou produtores a plantarem ainda menos para a subseqüente safra. No segundo, empresas multinacionais estrangeiras temem investir no país por seu recente histórico, ao passo que as empresas estatais não possuem as condições necessárias para fazê-lo.

Em janeiro deste ano novos problemas surgiram. Em uma tentativa de buscar equilíbrio nas Finanças, o governo boliviano anunciou o fim dos subsídios para diversos combustíveis, incluindo um aumento de 71% no preço do petróleo. Nada mais justo, uma vez que os preços internos estavam extremamente defasados em relação aos mercados internacionais, os prejuízos terminavam sendo cobertos pelo governo. Cerca de metade do déficit fiscal do país devia-se aos subsídios em questão. Além do impacto positivo nas finanças, Evo Morales acreditava que tal política levaria ao aumento dos investimentos externos no país.

Contudo, a reação popular foi voraz. Os então apoiadores de Morales somados aos movimentos sindicais saíram às ruas para protestar contra o presidente. Todos entendiam os impactos negativos do fim dos subsídios, especialmente no preço dos alimentos. Para uma economia que ia bem, como afirmava Morales, através da nacionalização de empresas e o boom do mercado de commodities; fez pouco sentido adotar uma medida tão extrema. Ironicamente, um dos presidentes socialistas do século XXI mais populares do continente se viu frente a massivos protestos. Teria o populismo de Morales funcionado contra si mesmo?

A aprovação do presidente caiu para 32%, menos de dois anos depois de sua eleição com 64% dos votos. O que fazer? Morales parecia destinado ao fracasso. Talvez a união em uma causa de grande apelo para o orgulho nacional pudesse ajudar, não? Assim parece pensar Morales. Recentemente o presidente boliviano reavivou o conflito histórico com o Chile com relação a uma saída direta para o Oceano Pacífico. Nada melhor declarar o “dia nacional da recuperação do mar”, não? Foi exatamente o que fez Morales. Medidas desesperadas diante do contexto de deterioração do governo. O que isso poderia representar? Será que o populismo traiu o populista?

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