Indústria de Defesa: afinal, e as RIs com isso?

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Damos continuidade a nossa série sobre Indústria de Defesa. Hoje, lidaremos com algumas implicações desse setor para as relações internacionais, e vice-versa.


Nas últimas postagens, vimos um pouco sobre Indústria de Defesa (ID) e questões de orçamento e políticas. Agora, vamos entrar um pouco mais na relação do tema com questões internacionais. Afinal, clientes de uma boa ID são não apenas as Forças Armadas de seu país, mas de outros. E quando se fala em ID, estamos pensando em planejamento de Defesa. Aumento de gastos com essa indústria, por um lado, pode pressupor uma corrida armamentista ou despertar algum tipo de incômodo da parte de vizinhos ou rivais; ao mesmo tempo, tratados de cooperação podem render investimentos valiosos para o setor. A linha entre competição e cooperação é bastante tênue quando se fala em Defesa…

Nisso entramos em um dos aspectos mais importantes do tema, a questão do “offset”. Esse termo, que ficou meio famoso por causa do Projeto F-X2 (de reaparelhamento da Força Aérea Brasileira), não é exclusivo de compras militares, mas no caso assume uma faceta mais importante. “Offset” é um pacote de, por assim dizer, “benefícios” que se obtêm ao comprar algo de fora – geralmente como acesso a códigos-fonte, financiamentos ou mesmo pessoal de fora, por um tempo limitado, como forma de “indenizar” o gasto feito pelo comprador. No caso do F-X2, por exemplo, a ideia é que, seja qual for o caça comprado pela FAB, fique disponível para o Brasil uma série de itens de alta tecnologia a fim de que o país consiga engrenar uma indústria efetiva no setor e, futuramente, ser capaz de produzir suas próprias aeronaves.

Se isso vai acontecer, ou não (o mais provável), é outra história. Existem casos de offset que funcionam, geralmente entre parceiros muito próximos ou estratégicos, mas via de regra nenhum país do mundo simplesmente repassa esse tipo de item de boa vontade. Não é o fim do mundo – nesse sentido, entram outras possibilidades, das mais divertidas como a engenharia reversa ou a espionagem, às mais pragmáticas, como o investimento para desenvolvimento interno e apoio a centros de excelência para desenvolver por conta própria. É um caminho duro, mas que dá resultado em longo prazo, e tema pra conversas mais pra frente.

Nesse ponto, vemos que cooperação internacional nesse setor sensível é algo bastante complicado… Mas, ao mesmo tempo, pode render dividendos muito bons. Se o desenvolvimento de capacidades estratégicas não acontece, pelo menos se formam laços de confiança, políticos e comerciais – por mais que não se repasse a tecnologia sensível, ainda se trata de um setor fundamental para a segurança e defesa dos países, e manter boas relações nessa seara é um bom sinal para as demais.


Categorias: Brasil, Defesa, Economia, Paz, Segurança


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