Indignações

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Se pudéssemos dar um nome à longa estrada da política internacional que atualmente muitos têm percorrido durante o ano de 2011 esse poderia muito bem ser “Indignação”. Populações ou parcelas de populações insatisfeitas passando desde os tortuosos caminhos do Oriente Médio, trilhados pelos protestos contra regimes autoritários de nossa bem conhecida primavera árabe, por aqueles que cortam as altas cordilheiras da dívida pública, que inspiraram indignados na Espanha, na Grécia ou em outros países da zona do Euro, até chegarem na América do Sul, pela gratuidade da educação no Chile. E, apesar de muito diferentes, de possuírem muitas condições específicas, todos eles parecem convergir em um mesmo destino: o das mudanças políticas significativas.

E, aos que pensaram que os Estados Unidos não teriam motivo para estarem incluídos nessa estrada, já podem rever seus conceitos. Desde o início de outubro que já observamos a disseminação do movimento “Ocupe Wall Street”, cujo nome é bem auto-explicativo. Todavia, o simples chamado a ocupar a rua que representa o poderio do grande capital financeiro e bancário poderia parecer a todos um tanto descabido ou sem grandes objetivos políticos, tornando Wall Street uma rua distante ou sem intersecções com nossa estrada da indignação. Bom, pode ser que essa percepção esteja equivocada.

A ocupação de Wall Street possui um valor simbólico muito importante. Significa que a insatisfação com o sistema financeiro e tributário estadunidense ganhou as ruas e agora exerce uma pressão de fato sobre o governo. Um movimento sem líder, que parece carecer de demandas, mas que significa a necessidade concreta de se ver mudada alguns aspectos da estrutura econômica dos Estados Unidos para que se amplie os impostos sobre as camadas mais abastadas.

Ora, a mesma força de agregar membros que o movimento possui é também uma grande dificuldade no mesmo sentido. O problema jamais seria os protestos não-violentos, a ocupação ou mesmo a falta liderança. Mas sim a falta de clareza no que concerne às demandas específicas. O que também não invalida o movimento (basta ver os recentes protestos brasileiros contra a corrupção), apenas dificulta um pouco mais que se atinjam objetivos específicos.

Todavia, o “Ocupe Wall Street” cabe muito bem nessa estrada da indignação que traçamos, e pode ser um radar social importante para que o governo estadunidense veja que parte de sua população trilha o caminho da insatisfação com atual situação da econômica bem como da estrutura econômica do país. O movimento é mais do que legítimo, materializa bem o que muitos estadunidenses já pensam há muito tempo (basta ver sua repercussão nacional) e segue trilhando o longo caminho dos protestos desse ano. Agora, o destino de fato dessa estrada, a mudança significativa desse sistema econômico, aí já são outros quinhentos…

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