Independência…

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4 de julho. O mais importante feriado dos EUA, o dia da independência. Poderíamos falar de um monte de assuntos políticos, mas acho que já fazemos isso demais por aqui. Então, que tal tratarmos um pouco de… futebol?

Sim, futebol. Antes que digam o que isso tem a ver com relações internacionais, saibam que a FIFA tem mais países filiados que a ONU, e é uma organização poderosa o suficiente, tanto financeira quanto politicamente, para influenciar mudanças na legislação interna de países. Nem vamos comentar o caso da organização da Copa de 2014, com as exigências absurdas e todas as negociações misteriosas de licitações e afins. Basta ver o caso da Venezuela – a FIFA ameaça impedir o país de participar das Eliminatórias caso seja aprovada uma lei que deixará exclusivamente ao governo a escolha de dirigentes e organização de eventos esportivos. Não vamos discutir se a decisão do governo de Chavez é correta ou não, e é claro que a “ameaça” é feita à Federação de Futebol da Venezuela, não ao país, mas o fato é que, de certo modo, vemos a FIFA pressionando, mesmo que indiretamente, um Estado soberano no sentido de rever sua legislação interna.

E os EUA com isso? Em 1994, nesse mesmo dia 4 de julho, eles foram eliminados pelo Brasil em partida memorável (se não pelo jogo duro, pelo maxilar quebrado do pobre Tab Ramos). Na época o futebol era um esporte semi-amador no país, mas organizaram uma Copa exemplar, revolucionaram a transmissão do evento, e conseguiram um desempenho formidável (lembro de um texto da época dizendo que os EUA conseguiram colocar “22 surfistas em um hotel com dieta de pára-quedista”, e jogar em pé de igualdade com os futuros tetracampeões).

Nos EUA, o futebol ainda é um esporte que alterna momentos de euforia…

A partir daí o esporte só fez crescer no país: no ano seguinte esse mesmo time ganharia da Argentina por 3 a 0 na Copa América, e seria criada a liga norte-americana de futebol, nos mesmos moldes de outras competições como o beisebol e o basquete. Desconsiderando o fiasco de 1998, podemos dizer que os norte-americanos tenham começado a gostar bastante do nobre esporte bretão. E ainda assim, parece que não embala.

…e de indiferença.

Os motivos usuais são dizer que nos EUA o futebol é esporte de meninas, ou que simplesmente não seja tão atrativo num país que domina tantos esportes de ponta. Uma explicação mais filosófica envolve o fato do futebol ser muito imprevisível e isso desagradar ao “racionalismo” e previsibilidade anglo-saxões (afinal, é inadmissível que haja um esporte no qual o time mais fraco tem as mesmas chances de vitória do time tecnicamente superior…). E isso parece muito estranho em um dos poucos países com o potencial de variedade populacional que é atribuída como fator de vantagem para o surgimento de craques – como no Brasil.

Imagino que uma outra resposta possa estar justamente nesse modelo de esporte, como é praticado por lá. Os norte-americanos são relativamente auto-suficientes e tradicionalistas nesse setor de entretenimento: a final do campeonato nacional de beisebol tem o nada pretensioso nome de “Série Mundial”, como se não houvesse times no Japão, na Venezuela… ou em Cuba. Se o “soccer” está se popularizando, muito se deve a imigrantes hispânicos que trouxeram o amor pelo “fútbol”. Ainda assim, o modelo da liga de futebol, a MLS, mesmo com um nicho pequeno de mercado comparando a outros esportes, segue o mesmo padrão, comercial e rentável, como quase tudo que os dedos do Tio Sam toca quando se trata de espetáculo. É uma liga privada, com interesses de empresas (e seus donos) investidos em clubes. Isso não ocorre em lugar algum do mundo – mesmo onde isso começou a acontecer recentemente, de forma mais deslavada como na Inglaterra, ou de forma pontual como alguns times espanhóis e italianos, o estrago da popularidade do futebol já foi feito há muito tempo, e essa “mercantilização” apenas se beneficia disso.

É esta a ironia. Os EUA são uma potência média do futebol; e os donos de seus times realmente não se importam muito com que ganhem campeonatos, e sim que rendam o máximo que puderem, como empresas. No país do lobby generalizado, o esporte se mantém à distância (até onde se sabe) de influências políticas como a da FIFA, por exemplo. E assim, nesse 4 de julho, podemos ver ironicamente que o esporte mais popular e rentável do planeta ainda não é um hit no país mais rico e onde o esporte mais rende no mundo, justamente pelo fato de ser independente por lá…


Categorias: Cultura, Economia, Estados Unidos


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