Independência, é sorte!

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Neste dia 7 de setembro, comemoramos os 188 anos de Independência do Brasil. A data é consagrada por uma visão histórica que remete aos tempos escolares, de desfiles militares e patriotismo. Já a realidade pode não ser tão floreada assim – os registros históricos afirmam que D. Pedro estava acometido por uma terrível diarréia e se locomovia em uma nada garbosa mula quando recebeu as notícias de alguns desmandos da corte portuguesa e impulsivamente declarou a opção pelo rompimento que deu no que deu hoje. Pois, tratemos do tema da independência, mas sob o viés internacional, claro – leia-se, a Política Externa Brasileira (PEB).

Existe certo consenso entre o pessoal da área quanto à continuidade e ao pragmatismo nas políticas do Itamaraty. As grandes sacadas do Barão do Rio Branco, nos idos do início do século XX, foram entender que o Brasil precisava se aproximar dos EUA para não ser fagocitado pela potência emergente, assim como formar um corpo diplomático altamente capacitado e, principalmente, alheio na medida do possível a inflexões na política interna. Isso se tornou perceptível na diferença entre as chamadas políticas de Estado e de governo.

Claro que em determinados momentos havia congruências entre ambas as vertentes, devido a conjunturas específicas – como, por exemplo, a Política Externa Independente (PEI) dos governos Quadros e Goulart, que encontrou terreno fértil no arrefecimento da Guerra Fria. Pois este é um tema recorrente à PEB – justamente a questão da independência já prevista pelo patrono da diplomacia brasileira, e que encontrou ecos até mesmo no pragmatismo responsável do governo militar em Geisel. Basicamente, o Brasil sempre teve como meta essa busca pela autonomia – em graus variados, ao sabor da conjuntura internacional – e garantida pela “independência” do Itamaraty, que pôde manter políticas de longo prazo sem ingerência de aspectos específicos de cada governo.

E hoje? Há quem diga que os recentes desdobramentos dos rumos que nosso pais anda tomando no exterior estariam coadunando-se com determinados aspectos de viés ideológico ou partidário do governo, o que seria nocivo à política do Estado. Nesse espírito inédito de diversificação, fala-se até em uma aparente contradição quanto à defesa de regimes internacionais, dada a aproximação com Estados não muito bem quistos na comunidade internacional. Por outro lado, é justamente esse um aspecto primordial do pragmatismo. Parafraseando o presidente, nunca antes na história desse país houve tanta autonomia para o Brasil. O resultado de mais de 100 anos de PEB visando a essa independência? Talvez. Mas resta saber como, nos próximos anos vamos lidar com o pragmatismo, em especial comercial, contraposto a uma crescente importância política e o chamado ao cumprimento das obrigações internacionais do Brasil.

A independência é um aspecto primordial da nossa política externa. Mas, se vamos saber arcar com o seu peso, cabe ao futuro dizer.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


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