Impunidade diária

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Impunidade é um conceito que pode ser definido em três palavras: falta de punição. Infelizmente as ações para combater esse delito não são tão simples quanto sua definição. E quando se trata do caso da Colômbia, há que se reconhecer a atualidade e a amplitude gigantesca deste problema no que se refere às guerrilhas e ao sistema de paramilitarismo criado para combatê-las.

“Impunidade” é ainda o nome de um documentário extremamente esclarecedor em relação a esse tema (disponível aqui, mas com legendas apenas em francês). Lançado em 2005 (ainda durante o governo Uribe), o documentário tem por objetivo, segundo seu diretor, “dar cuenta de la historia de miles de víctimas de los paramilitares en Colombia, con las que, hasta el día de hoy, el Estado está en deuda en cuanto a justicia, verdad, garantías de no repetición y reparación”.

E certamente o trabalho realizado neste filme não poderia ser mais elucidativo e impressionante. Considerada ainda nos dias de hoje como um dos países que mais sofrem com violência no mundo, a Colômbia enfrenta uma desigualdade extrema em sua população, o que motiva o surgimento de movimentos armados para lutarem contra as minoritárias elites nacionais que controlam os rumos da maioria da população sem acesso ao desenvolvimento. As Farc são a guerrilha mais conhecida, dentre várias outras.

Apesar do ideal quixotesco, os métodos empregados pelas guerrilhas colombianas são, ao contrário, bastante questionados pela propagação da violência, sendo que sua extinção tem sido um objetivo político constante dos últimos governos nacionais. No entanto, em meio a tal luta contra a desigualdade, muitos outros problemas sociais surgem por consequência, dentre os quais o (menos noticiado) paramilitarismo merece atenção destacada.

Dado que o Estado não foi capaz de reprimir a criação de guerrilhas com seus instrumentos tradicionais, uma minoria de grandes empresários e políticos colombianos que concentram a maior parte dos recursos financeiros (e, consequentemente, “controlam” direta ou indiretamente o Estado, o narcotráfico e a economia) passou a financiar grupos paramilitares com este objetivo nos últimos anos. A polêmica alcança até familiares do ex-presidente Uribe e políticos de grande notoriedade no país.

Estes paramilitares atuam “paralelamente” ao Estado e não enfrentam diretamente os guerrilheiros, mas exterminam militantes de esquerda ou camponeses sob o pretexto de cumplicidade com as Farc. Em termos realistas, uma quantidade enorme de inocentes é assassinada ainda nos dias de hoje sem qualquer motivo real, apenas para justificar o dinheiro recebido…

Trata-se de um terrorismo moderno e pouco publicizado, já que os Estados Unidos possuem interesses estratégicos em relação à Colômbia, apoiando o governo e aquiescendo com a situação vigente. Muitos líderes paramilitares foram inclusive extraditados para os Estados Unidos acusados de narcotráfico antes mesmo de responderem por massacres cometidos na Colômbia, o que demonstra uma legislação condescendente com os crimes.

Com uma situação real de mais de 50.000 desaparecidos e 4 milhões de deslocados internos em decorrência do paramilitarismo, ocorre, pois, que a Colômbia de hoje sofre com uma chocante cultura de violência e impunidade. Segundo um analista colombiano, a política do país “está más tomada por la mafia y la corrupción que nunca”. A criação de guerrilhas e o combate a estas por meio do paramilitarismo são duas faces cruéis de um mesmo desafio colossal em seu impacto e complexidade para a Colômbia. Buscar o progresso deve pressupor, antes de mais nada, o combate a essa impunidade diária que assola o país de forma tão extrema.


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