(Im)Parcialidade

Por

sf (parcial+i+dade1 Qualidade de parcial. 2 Facção, partido. Tendenciosidade.

sf (imparcial+i+dade1 Caráter ou qualidade de imparcial. 2 Equidade, justiça, neutralidade.

Fonte: Michaelis

Na semana em que a Venezuela presenciou uma conturbada e apertada vitória eleitoral do ex-vice-presidente de Hugo Chavez, ou seja, Nicolás Maduro, e o tão comentado atentado à bomba nos Estados Unidos, mais precisamente na cidade de Boston, é sempre complicado buscar alguma outra notícia, analisar, comentar e depois escrever o texto aqui na Página Internacional. 

Mesmo assim, o que mais me chama atenção é sempre o modo como as mídias, notadamente televisivas, constroem seus argumentos. É até uma tarefa relativamente fácil criticar ou, segundo algumas pessoas, “falar mal”. Só que no caso dos telejornais, por exemplo, parecem que os jornalistas imploram para serem “atacados” por des-elogios. 

Primeiro foi o caso da suposta guerra nuclear a ser proferida pela Coreia do Norte. Vi até em um jornal do SBT o comentarista dizendo mais ou menos assim: “Agora vamos falar bem da Coreia e, é claro, nos referimos à Coreia do Sul”. Tudo bem se o jornalista em si tiver seu posicionamento ideológico ou até mesmo o diretor do jornal ser ultra-pró-norte-americano. Mas, como telejornal, como organização de difusão de informações, promover juízos de valores, comentários maliciosos ou quaisquer outras posições visivelmente imparciais é um pouco antiético. Sem contar as chamadas de cinco segundos que diziam: “Coreia do Norte ameaça com bomba nuclear”. E, para um analista internacional que se preze, sabe que desde o fim da Guerra da Coreia os dois países do norte e sul vivem em estado de conflito, pois somente um armistício fora assinado e, em virtude de sua porosidade, fora cancelado por Kim Jong-Un. Uma guerra assim é praticamente impossível de acontecer, mas o importante são pontos no Ibope, certo? 

Praticamente não comentarei o caso das eleições venezuelanas. Basta dizer que só faltou o Datena mostrar vídeos dos atentados supostamente proferidos por partidários e simpatizantes de Capriles.

Daí me vem os acontecimentos de Boston. Não retiro o mérito das notícias, até porque os ataques realmente são preocupantes e foram terroristas, no meu ponto de vista, pois tiveram como alvos civis inocentes. Repudio todo tipo de ação assim. Entretanto, voltando ao foco do texto, liguei a TV na Globo e marquei o tempo: cerca de 15 minutos. Para um jornal de meia hora, praticamente metade só focou nas imagens de Boston e nas operações do FBI e da SWAT (a proporção das operações chega até a assustar, conforme pode ser visto nestas imagens).

De certo modo, é até relativamente relevante pensar que assuntos ditos internacionais ocupem boa parte dos noticiários. Como a grande maioria sabe, a população não procura informação nem de política interna, então imagine as de Política Internacional. 

Por fim, chego ao meu argumento final. Jornalismo imparcial é impossível. Menos parcial é possível e passível de acontecimento. É correto atentar às notícias de Boston? Sim. Mas, por exemplo, por que ninguém fala que lá no Congo, na África, a ONU presenciou uma onda de estupros de bebês? Por que quase não se comenta que os Estados Unidos poderá assinar um acordo de nada mais nada menos que 10 bilhões de dólares para fortalecer seus aliados (Israel, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos) contra o Irã? Por que não noticiam que no Iraque existe um “corredor da morte” em que 150 pessoas esperam pela execução?

Se é para fortalecer os noticiários internacionais da TV, então que o façam de maneira coerente e pluralista. Do contrário, o jornalismo brasileiro continuará a ser mediano e fortemente criticado. Acabei de ver que um terremoto de 7 graus atingiu, hoje, o Japão. Esperem pra ver isso nos telejornais hoje. E, talvez, apenas isso.


Categorias: Conflitos, Mídia, Polêmica


0 comments