Imagem é tudo

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A Rússia está nos holofotes essa semana, seja pelo improvável duelo de olhares entre seu presidente e um filhote de leopardo, seja pelo início no dia de hoje das Olimpíadas de Inverno, na cidade de Sochi, seja pela escalada da crise ucraniana que gradualmente está se tornando um romance de espionagem da Guerra Fria.

Se o caro leitor acha que a gastança do Brasil com a Copa e Olimpíadas já causa alvoroço e indignação por esses lados (como já esperávamos há alguns anos…), o caso de Sochi é ainda pior. Basta dizer que o dinheiro gasto para a realização dos jogos supera a quantidade de TODAS as edições anteriores somadas. Entre outras coisas, até a neve tem que ser “produzida” para o evento – já que, entre tantas cidades literalmente congeladas no país, escolheram uma em que o sol brilha forte nessa época do ano. As denúncias de superfaturamento e corrupção deveriam ir lado a lado com o quadro de medalhas, mas com a liberdade de imprensa bastante comprometida naquele país, resta à comunidade internacional observar o boicote de alguns atletas e políticos internacionais ao evento como protesto. E isso para não entrar na questão da ameaça dos possíveis ataques terroristas, já que a localização dos jogos é perfeita para isso.

Mas o que está chamando a atenção mesmo é o caso da Ucrânia, por que a briga com os EUA remonta aos tempos da bipolaridade. Resumindo a ópera, a população ucraniana protesta desde novembro do ano passado contra a decisão do governo de cancelar um acordo com a União Europeia, supostamente sob pressão russa, e a tensão se desenrola há meses. EUA e Rússia fazem parte dos esforços de negociação para resolver o impasse, mas um vazamento nessa semana esquentou o clima: provando um pouco de seu próprio veneno, a secretária de Estado adjunta dos EUA foi flagrada em conversa com o embaixador norte-americano nos EUA, na qual ofendia (pra dizer o mínimo) os esforços da UE em participar do processo. A troca de acusações vai para todos os lados: os EUA acusam a Rússia de espionar e vazar a conversa, a Rússia acusa os EUA de ajudar a oposição e a UE fica indignada com tudo isso.

O que vemos aqui é uma clara mensagem do governo russo de exibição de poder. O caso da Ucrânia mostra que mais uma vez a Rússia expande e tenta manter sua esfera de influência. Os EUA espionam todo mundo? “Nós também podemos”, responde entrelinhas Moscou (na verdade todos fazem isso, mas já é outra história). A China fez a mais imponente Olimpíada de todos os tempos? Putin faz nevar em uma cidade ensolarada para os Jogos de Inverno. E encerramos esse raciocínio com a imagem do presidente entre os leopardos. A ideia, oficialmente, é de divulgar uma iniciativa ecologicamente correta sobre um santuário para a preservação desses animais, mas é claro que aparecer amansando feras selvagens adiciona mais um capítulo no imaginário desse presidente “folclórico”, por assim dizer. Sua ideia de reerguer a Rússia no plano internacional é clara. E para isso, um país precisa demonstrar recursos de poder, seja duro ou brando. E a Rússia está demonstrando que domina ambos, com foco na figura desse presidente enigmático e matreiro.


Categorias: Europa, Mídia, Política e Política Externa


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  1. […] somando um valor não-oficial de 50 bilhões de dólares! Isso, inclusive, foi postado no texto “Imagem é tudo” aqui na Página Internacional. Segundo dados da ONG Fundação Anti-Corrupção, esse montante […]