Imagem da Semana

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A Imagem da Semana de hoje é muito mais simbólica historicamente do que impactante em si. Trata-se de uma foto em que a recém presidente eleita do Chile, Michelle Bachelet, planta uma árvore em homenagem à morte do ex-presidente Eduardo Frei Montalva, o mesmo homem responsável pela derrota de Salvador Allende nas eleições de 1964. 

O episódio, certamente um dos maiores exemplos de intervenção do governo do EUA sobre a política na América Latina, só pôde ocorrer graças a uma contribuição das agências americanas com estratégias e o financiamento da propaganda política pela vitória de Montalva.   

Com a posse, Montalva foi o primeiro política chileno a apresentar um projeto desenvolvimentista baseado em empréstimos internacionais, privatizações e apoio à livre iniciativa, exatamente o oposto ao projeto socialista de Allende. O ex-presidente era ainda muito influente durante a ditadura militar chilena, até mesmo quando o líder socialista morreu na cadeia. 

Mas o que tudo isso tem a ver com Bachelet? A presidente atual é uma política de origem socialista, do mesmo partido criado por Allende. A sua homenagem a Montalva é um ato simbólico da convergência das ideias políticas e dos partidos que vêm ocorrendo bastante no Chile. Uma socialista de origem planta uma árvore em lembrança ao antigo rival, algo pequeno diante da política inicial da presidente, que é basicamente a manutenção dos governos anteriores, todos eles baseados no que foi iniciado por Montalva e aperfeiçoado por Pinochet. 

O Chile é o maior exemplo de política neoliberal “de sucesso” no continente, e também exemplo da falta de novas ideias aos socialistas, da falta de alternativas de governo. Nesse cenário, é mais provável que hajam menos embates ideológicos e maior estabilidade entre governos de partidos diferentes. Em muitos casos, até mesmo o perdão histórico de disputas sanguinárias, como foi durante a ditadura chilena o combate entre socialistas e militares.

Bachelet é até aqui, seja nas homenagens ou durante a formulação das políticas de seu governo, o maior exemplo de que deixou-se de lado a política de oposição, e no continente há uma tendência de convergência ideológica, com exceção dos países governados por líderes ainda da “velha esquerda”, como o caso de Venezuela e Equador.