Ideologia ou pragmatismo?

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Desde a década passada, o debate sobre política externa deixou apenas os corredores do Itamaraty para ocupar também espaços na mídia. Longe de atingir o status de discussão de interesse geral, a ação exterior esteve mais evidente do que em outros períodos. Em parte, a personalidade de pop star do ex-presidente Lula e sua vontade de estar envolvido nesse processo contribuíram para isso. Também, o interesse de empresários, sindicatos e grupos sociais de estarem incluídos em negociações internacionais importantes influenciaram a construção do cenário que se vê hoje.

 A questão é que a política externa está em pauta. Porém, como ocorre com qualquer tema que se torna manchete, está sujeita a simplificações e distorções. Nos últimos anos, quando os temas foram relações com a América do Sul, Cuba e África, dois eram os argumentos principais. De um lado, setores da mídia vociferavam que a política externa era ideológica, regida por um viés “esquerdista”. De outro, defensores diziam que se tratava de pragmatismo.

A visita de Dilma à Cuba para inaugurar o porto de Mariel é um exemplo da divisão dos últimos anos. O financiamento do BNDES para uma obra em Cuba e os incentivos do Brasil para aproximações bilaterais incomodaram a muitos, enquanto que, a outros, foram pragmáticos. O problema é que atos isolados dificultam a compreensão de algo complexo, e acabam por levar a questionamentos muito simplificados.

Talvez por isso, a pergunta “ideologia ou pragmatismo?” seja muito singela. Essa divisão, bastante saudável na sociedade democrática, poderia ser utilizada para  perguntas mais adequadas, relacionadas às escolhas da política externa brasileira no longo prazo. Não quero definir aqui as “perguntas certas”, mas sim indicar algumas que entendo valer a pena ser pensadas. Para tanto, é preciso contextualizar os acontecimentos nos movimentos dos últimos anos.

Primeiro, o financiamento BNDES ao porto cubano não é um ato isolado. É a manifestação de um processo que vem se arrastando desde 2003. O Brasil tornou-se um grande financiador de projetos de infraestrutura na América Latina. Entre 2003 e 2010, por exemplo, financiou mais de 80 projetos na América do Sul, com um valor total de US$ 80 bilhões. Pontes, estradas, metrôs e hidrelétricas foram alguns exemplos.

Esses financiamentos tem sido feitos de formas diretas e indiretas. A direta seria por meio de empréstimos feitos pelo BNDES e pela Camex. Já a indireta, por doações a organizações internacionais que fazem esse trabalho. Por exemplo, o Fundo de Convergência Estrutural (Focem), do Mercosul, e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, da OEA. No que se refere à primeira forma, é interessante observar que, em muitos desses projetos de infraestrutura, as principais beneficiadas são grandes empresas brasileiras. O resultado foi que o BNDES se tornou uma das mais importantes ferramentas para a internacionalização de empresas. A título de exemplo, entre 2003 e 2013, os financiamentos a empresas brasileiras no exterior, em especial, na América Latina e África, cresceram aproximadamente 1185%. 

O segundo ponto é que, no mesmo período, o Brasil ampliou também o valor destinado à cooperação para o desenvolvimento de países menos desenvolvidos. O foco principal também tem sido a América Latina e África. Além de infraestrutura, o governo também envolveu-se em muitos projetos de transferência de conhecimento técnico para incentivar o desenvolvimento de países dessas duas regiões, principalmente nas áreas de agricultura e saúde. O aumento do valor destinado a essas atividades foi significativo e ilustra um pouco essa tendência. Segundo a Agência Brasileira de Cooperação, entre 2005 e 2009, por exemplo, a cifra cresceu aproximadamente 178% (de US$ 35,102 milhões para 97,744 milhões).

No conjunto, houve alguns ganhos de curto prazo. Entre 2003 e 2010, o comércio com a América do Sul cresceu 165,5%, com a América central e México, 14,5%, e com a África, 520%. Ganhos importantes, mas, não o suficiente para substituir os outros tradicionais parceiros comerciais brasileiros. Nos últimos anos, a China, os Estados Unidos e a Argentina ainda eram os principais em volume de comércio.

Isso nos leva ao terceiro, e principal, ponto: onde o Brasil quer chegar? Ao que parece, existe caráter estratégico nesses investimentos. Do ponto de vista econômico, os financiamentos significam que o Brasil seria um parceiro privilegiado nos negócios futuros com esses países; e cooperação para o desenvolvimento significaria “investir hoje nos parceiros de amanhã”. Do ponto de vista político, o país poderia ter mais apoio para futuros objetivos internacionais, como, por exemplo, reformas na ONU, na OMC, FMI e etc. A Unasul e a Celac (para mais no blog sobre o bloco, clique aqui) são exemplos de dois órgãos incentivados pelo Brasil para garantir que haja um estreitamento político além dos laços econômicos.

Agora, com base nesse panorama geral, ficam novas perguntas. Quais são os objetivos? Essa é a estratégia mais adequada para atingi-los? Quais tem sido as vantagens para os diversos setores da sociedade, para a diplomacia e para a política externa? Quais as contradições? Frente à dicotomia “ideologia x pragmatismo”, talvez essas perguntas valham mais a pena. Porque simplificar uma realidade tão complexa a somente esses dois conceitos seria perder muito do que vem ocorrendo na política externa brasileira dos últimos anos.


Categorias: Américas, Brasil, Política e Política Externa


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