Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 9]

[Chegamos ao penúltimo texto da série “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este nono post analisa a questão do tráfico de seres humanos e aborda como este tema pode ser vinculado à mídia televisiva. Aproveitem a leitura!]

Papo de novela 

Não é objetivo deste texto se aprofundar nas discussões sobre cultura e comunicação de massas e a trama de interesses que daí se origina, mas refletir sobre a importância da disseminação de temáticas relevantes pelo globo, atingindo um elevado número de indivíduos. Atentemo-nos, então, às telenovelas brasileiras, enquanto representações sociais, serem capazes de fazer circular informação não apenas no âmbito local, mas também em mais de cem países. 

Sabemos que os folhetins estão expostos ao que alguns chamam de “preconceito acadêmico” – tendo sido alvo de críticas das correntes teóricas dos anos 1970 e 1980, vistas meramente como produtos de entretenimento da indústria cultural. Honestamente, todos nós fazemos julgamentos diários a respeito – e desconfio que, em muitos casos, as pessoas o fazem mais por se tratar do popular, do mainstream, do que por outras razões. No entanto, quaisquer críticas não invalidariam sua habilidade (salvo engano, de meio século) na mediação entre o mundo vivido e o mundo representado. 

Mencionei na última postagem que as “cenas do próximo capítulo” envolveriam o tráfico internacional de seres humanos e que a motivação a dar vida à postagem seria justamente uma trama ficcional. Aos desavisados, é suficiente saber que a Rede Globo promete em Salve Jorge – sucessora de Avenida Brasil – o trato do tema.* Além de outros aspectos, a nova novela global trará depoimentos de vítimas, apresentados ao longo da produção. 

Longe de acreditar que pela menção ao assunto a complexa rede de crimes será dissolvida/atingida. Noto que talvez isso possa indicar, entretanto, que os estímulos presentes em novelas não estejam mais voltados apenas aos temas rotineiros, nos quais se acreditava serem os únicos passíveis de gerar identificação no público. Parece haver lugar, hoje, às representações de uma multiplicidade de universos, fazendo com que outros retratos e apelos sejam também levados a distintos territórios e audiências. 

É bacana refletir sobre os conteúdos e a sua disponibilização, afinal, apesar de estarem aquém do ideal em muitos sentidos, as narrativas agregam informação aos espectadores. Trata-se, enfim, de conhecimento sendo compartilhado. Mais bacana ainda é saber que mais pessoas entenderão, por exemplo, que o tráfico é uma das, senão a, atividades criminosas mais lucrativas do mundo e que, de acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), a modalidade voltada especificamente aos seres humanos movimentaria bilhões de dólares a cada ano. Que, ao extrapolar fronteiras, envolveria um preocupante número de agentes e de países, tornando-se ainda mais complexo quando adicionais como a corrupção e o advento da Internet, como rede de aliciamento, entram em questão. Que os insanos objetivos deste, são fins de adoção, uso de mão de obra escrava, exploração sexual e comercialização de órgãos. Que crianças e mulheres são os principais alvos. E que, sei lá, um vizinho pode estar envolvido nisso – estamos todos vulneráveis a prática sendo, portanto, fundamental zelar pelo seu combate. 

Ademais, pode ser um trunfo favorável ao enfretamento. O receituário básico de medidas corresponderia à prevenção, proteção e criminalização – alicerçadas na cooperação internacional para o caso da transnacionalidade do crime. Da maneira como nos são apresentadas parecem um pouco distante, não? Outras fontes (que não a Organização das Nações Unidas) especificam estratégias mais simples e pontuais, dentre as quais destaco a necessidade em dar visibilidade ao tema. Uma vez abordado por um veículo de comunicação popular, pode vir a transformar sujeitos ativos da ficção em sujeitos ativos da realidade. 

De tamanha popularidade, também para além das fronteiras nacionais, devemos admitir que as propostas de ficção seriada são parte de uma experiência cultural contemporânea. Se pensarmos na necessidade de exposição do tráfico internacional de pessoas, tais propostas poderiam, então, ter um papel transformador. Se a linguagem e a mensagem (são) serão as mais adequadas? Difícil determinar, mas imagino que para questões como estas não haja muito tempo para firulas e preciosismos de academia. Bem ou mal, “o que se quer comunicar” chegaria a um mundaréu de gente. E, por fim, objetos e saberes (estão) estarão por aí, escancarados diariamente em lares de algum canto do mundo.

*: A história protagonizada por Carmem Lúcia (Adriana Esteves) e Nina (Débora Falabella) bem que tentou uma breve abordagem, mas teve que abortar a missão para não esgotar o assunto antes do tempo. 

PS: Mais informações podem ser acessadas diretamente nos sites do UNODC e do “Tráfico de Pessoas”.


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