Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 8]

[E continuamos com a série “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este oitavo post aborda a presença brasileira no Haiti para muito além de sua pacificação interna. Aproveitem a leitura!]

Tambores da Paz 


A poesia não se perde, ela apenas se converte pelas mãos no tambor que desabafam histórias ritmadas como único socorro promissor [1] 

Embora tenha me dedicado a investigar algo mais sobre tráfico de pessoas, em parte inspirada pelo caso do menino haitiano que há de receber cidadania brasileira e pela próxima novela global “Salve Jorge” (pois é!), deixarei o tema para as cenas do próximo capítulo. Sim, porque foi pesquisando sobre o Haiti que descobri uma participação brasileira nos bastidores de outra questão: as crianças soldado. 

Neste ano, o tema circulou com alguma intensidade. Quem não se lembra do polêmico viral “Kony 2012”? De Charles Taylor, o primeiro chefe de Estado (Libéria) a ser condenado por um tribunal internacional? E do senhor da guerra congolês Thomas Lubanga Dyilo, sentenciado a 14 anos de prisão pelo Tribunal Penal Internacional? [2] 

Apesar de Kony, Taylor e Dyilo (e outros mais) protagonizarem a barbárie pela África, e de a maioria dos infantes se encontrar nesse território, os demais continentes têm faceado algo semelhante (mais aqui). Estima-se, então, que um número relevante de crianças sejam vítimas, mas também rés das guerras e dos conflitos armados no mundo. O crime? Sonhos e infâncias roubados. A pena? Quando não a morte, os abusos que sofrem – os quais prefiro eufemizar como experiências assustadoras e repulsivas – e que resultam em danos emocionais e físicos gravíssimos. [3] 

Vale lembrar que o Haiti carrega consigo um histórico político, econômico e social instável. Desde a sua independência em 1804, os golpes, as revoltas, a sucessão de governos provisórios, a corrupção, a violência, o quadro de pobreza e uma trajetória grave de violação aos direitos humanos chamam a atenção da comunidade internacional. Aquele que já sucumbia a este cenário se viu devastado por uma tragédia natural em 2010: um terremoto. Ou seja, o país caribenho passou a trilhar caminhos ainda mais delicados.

Diante disso, para muito além da MINUSTAH [4], o Brasil estreitou laços com o país de outra maneira: o Viva Rio, famoso por seu protagonismo em favelas cariocas desde a década de 1990, transcendeu fronteiras e levou sua bem-sucedida tecnologia social ao país. Dada a experiência adquirida ao longo dos anos, a organização não demorou muito a reconhecer que as zonas de conflito do Haiti, somadas à dura realidade que se figurou, induziriam crianças e adolescentes às situações de vulnerabilidade. À bem da verdade, os caras parecem ter se sentido em casa: a atuação seria voltada àquelas comunidades em que os pequenos estariam a serviço do crime – o que vai da simples transmissão de informação (o equivalente aos nossos vapores do tráfico) até o manuseio de entorpecentes e armas, a prostituição, e outras coisas mais. Aquela velha história: contextos distintos, demandas semelhantes. Sendo a “paz” parte integrante de seu DNA, foram à ação. 

De 2004 aos dias atuais, a iniciativa mantém quatro unidades em território haitiano por meio das quais desenvolve projetos em áreas centrais, tais como saúde, educação, meio ambiente e segurança comunitária (mais aqui). Para esta última, considerada como um de seus projetos mais desafiadores, há ações específicas que compreendem a reintegração das crianças soldado. O programa inclui atendimento médico, oficinas profissionalizantes, atividades psicossociais, aulas extracurriculares, suporte financeiro, atividades geradoras de renda e, principalmente, um convite a fazer arte. É, arte! Mais uma vez, trata-se da cultura como meio para um fim maior: a promoção da paz. A violência da história se retira e cede lugar às práticas culturais.

Como? Descobriram, por exemplo, que os tambores que marcam o rará (som local típico) eram parte essencial dos grupos sociais. E também que, por meio deles, seria possível unir rivais – o que em princípio contava com o apoio de apenas 14 líderes locais, hoje integra mais de 100. Nasceram daí 5 acordos de paz, os Tanbou Lapè (Tambores da Paz). As vibrações e os ecos produzidos pelos conflitos são sufocados por formas de expressão e de resgate da identidade e da auto-estima dos pequenos. E espera-se que o único emprego da violência passe a ser para que os tambores rufem em nome da paz. 

[1] Brixton, Bronx ou Baixada. Disponível aqui.

[2] Abordado no Página Internacional aqui e aqui

[3] O artigo 38 da Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança, somado ao Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas, estabelece a proibição dos governos e dos grupos armados em recrutarem crianças e adolescentes menores de 18 anos em conflitos armados. Apesar de mais de 100 países ratificarem o acordo, as crianças soldado ainda existem. 

[4] Missão das Nações Unidas para Estabilização no Haiti. Dos objetivos da missão, ressaltam-se a estabilização nacional, a pacificação e o desarmamento de grupos insurgentes, a promoção da democracia por meio de eleições livres e públicas e o desenvolvimento institucional e econômico do país. 

[5] Materiais Viva Rio Haiti aqui e aqui.


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