Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 6]

[Depois da semana em que a Página Internacional comemorou sua milésima postagem, voltamos com a série “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este sexto post traz uma visão diferente e poética a respeito do cotidiano de algumas “cidades-globais”. Aproveitem a leitura!]

Canção da liberdade na cidade 



Uma voz que atravessa a cidade […] 

Voz que vem do trapiche dos Capitães de Areia

[…] Voz poderosa como nenhuma outra. 

Porque é uma voz que chama para lutar por todos, 

pelo destino de todos, sem exceção. 

Voz que atravessa a cidade e vem de todos os lados. 

Voz que traz com ela uma festa, 

que faz o inverno acabar lá fora e ser a primavera.

A primavera da luta. […] 

Voz que traz o bem maior do mundo, 

bem que é igual ao sol, mesmo maior que o sol: a liberdade. [1] 

No ano em que se comemora o centenário de Jorge, o amado, debruço-me brevemente sobre o lugar dos Pirulitos, dos Sem Pernas, dos Gatos, dos Professores, das Doras, dos Balas. Ou, segundo o autor, daqueles que, em verdade, são os donos da cidade, os que a conhecem totalmente, os que a amam, os seus poetas. Salve Jorge! 

Uma vez que as desigualdades continuam tão pontiagudas quanto no passado, coexistimos, então, com uma “periferia global” que faz das cidades palco de abismos sociais. Já nos anos 30, ao escrever Capitães de Areia, Amado anunciou, com algum (des)encantamento, um futuro em que rua e vida se fazem confundir. Seja no trapiche baiano ou na “quebrada” dos grandes centros urbanos, o lugar dos “capitães” é também o mundo. 

Cidade do México, Cidade do Cabo, Karachi, Nairóbi, Dakar, Medelín, Rio de Janeiro e noutras tantas mais… A partir das últimas décadas, houve a proliferação de propostas autonominadas antídotos às mazelas sociais, das e nas cidades partidas. Afirmando-se também emancipadoras – e portadas, em alguns casos, de um invólucro discursivo mais importante que suas ações – acompanharam o movimento global pela justiça social. Brotaram, então, os projetos de inclusão. Inclusão dos “meninos”, cuja infância marginal foi dedicada a espalhar doçuras e travessuras pela urbe. 

Exauridos pela ciranda social que os impunha a margem da sociedade, os capitães se empoderaram e se empenharam na busca por alternativas de enfrentamento mais maduras, legitimas e, principalmente, criativas. É por isso e muito mais que vislumbramos, hoje, significados de cidade menos cinzentos. Mais que unidade geográfica elementar, se torna “as pessoas nos seus conflitos, medos, alegrias e paixões” [2], a “paisagem de nossas confusões” [3], um grande carrossel que, uma vez armado, mesmo que com cores desbotadas, iluminaria a todos os corações. 

Muito porque o canto e a voz da “periferia” ressoam, hoje, como os clarins de Amado, não para predizer a guerra, mas a liberdade. Que diria o camarada, o organizador de greves, o dirigente de partidos ilegais, o perigoso inimigo da ordem, Pedro Bala, nos dias atuais? Que os capitães estão em pé e que o destino do planeta mudou. 

[1] AMADO, Jorge. Capitães de Areia. Rio de Janeiro: Record. 72ª. ed., 1991. p.228. 

[2] BARBOSA, Jorge Luiz. Cidade e território: desafios da reinvenção política do espaço público. Disponível aqui.

[3] Thomas Flanagan cit. Lynch, K (1997, p. 134) apud VIANNA, Andréia de Resende Barreto. Cidade e arte: uma rua de mão dupla. 2002. 62f. Dissertação (Mestrado em Comunicação, Imagem e Informação). Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2002. p. 37.


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