Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 4]

[Continuamos com a série de postagens “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este quarto post aborda um pouco dos novos movimentos sociais. Estas reivindicações são possibilidades de se considerar os indivíduos como atores das Relações Internacionais. Boa leitura!]


Planeta Satyagraha*



Neste “ideias que transcendem fronteiras” decidi pautar brevemente algo que não estava nos planos – talvez, influenciada pela mobilização voltada ao Código Florestal e pela Marcha das Vadias, nos últimos dias. As tags #protestos e #manifestações inundam os blogs, as redes sociais, os noticiários, tornando-se impossível não lhes dedicar alguma atenção. Inúmeras cidades vêm sediando eventos cujas reivindicações vão da educação às crises financeiras, da corrupção às questões de gênero. Borbulham movimentações na Espanha, na Alemanha, na Rússia, no Canadá, na Grécia, no Tibet…! De estudantes indo às ruas em Quebec, aos palhaços (pois é!), em Lima. As questões levantadas acabam por ganhar notoriedade noutros lugarejos – e com isso força social – fazendo do planeta efervescente!


Em 2011, a Revista Times dedicou à categoria de “personalidade do ano” aos manifestantes, sob a justificativa de que cerca de 3 bilhões de pessoas evidenciaram que a ação coletiva pode nos conduzir a grandes mudanças. Seja nas urnas ou nas ruas, um grito coletivo ecoou pelo globo, fazendo tamanho barulho. Eram os ilustres protagonistas de capa de revista – ou, como prefiro chamar, cidadãos comuns – nos mostrando a que vieram. A bem da verdade, sempre o fizeram – cada qual a sua maneira –, mas agora parecem ter seu lugar reconhecido na história (e pela mídia). Aqui o que nos importa é que os gritos ainda podem ser ouvidos a cada esquina do mundo.



Salvo exceções, o que se tem visto é que tais movimentos contemporâneos tomam cada vez mais as nuances de tipos de resistência não violenta – pelo menos em intenção. Notem que, na maioria dos casos, se tratam de questões sociais onde protestos simbólicos – que incluem, também, de guerra de informações online às intervenções artísticas – são utilizados como meio para a promoção da mudança a qual se intenta. Ao contrário do que se imagina, parece ter havido, então, alguma redução no emprego da violência quando se quer reivindicar ou mudar algo. 


É semelhante ao que atesta Steven Pinker, professor de psicologia em Harvard, em sua obra The Better Angels of Our Nature: Why Violence Has Declined. Segundo o autor, vivemos o momento mais pacífico da história – ainda que coexistamos com realidades que contradigam a afirmação. Seu estudo trata do declínio estatístico da violência física, aponta a emergência de outros tipos de agressão, agora imateriais (psicológicas, morais, cibernéticas…). Dos argumentos que apresenta para sustentar sua tese, é bacana ressaltar dois deles: aquele em que eleva a tecnologia enquanto uma das responsáveis por tanto, uma vez que fomentaria jogos de soma positiva com os quais os indivíduos podem se envolver e optar por processos cooperativos e co-criados, resultando em soluções mais pacíficas; e aquele em que exalta a empatia, a qual está cada vez mais presente nos discursos e em áreas diversas, como sintoma da evolução humana – e, particularmente, tenho considerado que em breve a elegeremos como o zeitgeist deste século. 


Em adição, notamos ainda que estamos a viver num momento em que felizmente não temos mais o horror generalizado das grandes guerras, tão pouco das grandes depressões – fatores que um dia foram apropriados para justificar o uso da força em escala global**Isso não faz de nós rebeldes sem causa, mas revolucionários (e, ao mesmo tempo, sobreviventes) das guerras diárias as quais enfrentamos. Algumas delas mais simbólicas e menos rancorosas que no passado, mas pelas quais ainda emanamos gritos por liberdade, igualdade e dignidade. Sendo assim, neste século, afirma Pinker, o questionamento central não é somente “porque existe a guerra”, mas também “porque existe a paz”, pois, ao que nos parece, estamos a acertar em alguns pontos – ainda que haja muito a se fazer.


* Satyagraha: satya (verdade), agraha (firmeza, constância); filosofia desenvolvida Gandhi, remetendo aos movimentos de resistência não violenta, nos quais não há vitória ou derrota, mas o estabelecimento de harmonia e equilíbrio. 


** Longe de anular, por exemplo, o momento social vivenciado pela África, ou o econômico, pela Europa.


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1 comments
Nice
Nice

Acho que esses textos merecem ser publicados. Eles são profundos e contagiantes.