Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 3]

[A Página Internacional dá continuidade à série de postagens intitulada “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este terceiro post traz como tema central a educação, enfatizando-se novos projetos e iniciativas que procuram vinculá-la com a humanização dos aprendizes. Boa leitura!] 


Bê-á-bá com biscoitos: sinta, imagine e…



Como estabelecimento de fronteiras permeáveis, emergem desafios nas mais diversas áreas. Há ainda a perda de referencial em relação ao tradicional (e dogmático). Em grosso modo, a carcaça não se adapta mais ao conteúdo (e vice-versa). Não é diferente com a educação. Num contexto cuja formatação é tão densa, tem se pensado em como preparar indivíduos para conhecerem ao mundo, aos outros e, antes de tudo, a si mesmos. 

O sistema educacional adotado pelos Estados, hoje, parece seguir a linha de montagem proposta por Ford ao inicio do século XX. E em prol de um bê-á-bá esvaziado de sentido, admitiu poucas inovações ou sufocou aquelas iniciativas que teimosa e corajosamente o fizeram. 

Não há propriamente mocinhos e vilões, mas um descompasso entre modelos e contextos, isto é, a educação imposta sem que haja uma contrapartida de espaços e lugares compatíveis às necessidades e manifestações sociais contemporâneas. Em consequência, há o desgaste e, portanto, o vácuo na relação entre os envolvidos, os quais ora não se reconhecem, ora o fazem com demasiado estranhamento. Notou-se, então, a necessidade de revisão dos ambientes de aprendizagem bem como do papel daqueles que o integram. 

Voltadas a tal fim e com um jeitinho “diferentão”, nascem ações pedagógicas e metodologias pulverizadas pelo globo. Promovendo a junção entre cognitivo e afetivo são replicadas e multiplicadas em contextos extremamente plurais. 

Tomamos de empréstimo um movimento notável (e apaixonante): o Design For Change (DFC). Munida de uma metodologia peculiar, desde 2006 a idealizadora indiana Kiran Bir Sethi objetiva mudar os destinos de crianças e jovens em seu país e no mundo. [1] 

Em conversa, Anshul Aggarwal, articulador global do DFC, nos explicou por que, apesar de diferentes contextos, estão presentes em mais de 30 países (também no Brasil). Contou-nos que o design thinking [2], basicamente, põe o usuário no centro da experiência, já que são formuladas soluções voltadas às suas necessidades. Crianças e adolescentes são convidados a sentir, imaginar, agir e compartilhar ideias, tornando-se protagonistas de seus processos de aprendizagem. Uma vez aplicada ao ambiente educacional, tal metodologia contribuiria ao cultivo da empatia que seria o elemento chave para unir seres humanos, ensinando-nos a desenvolver novos olhares sobre o universo que nos rodeia. É assim que o DFC transcende fronteiras – quaisquer que sejam. 

No Brasil, por sua vez, há o exemplo emblemático do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), encabeçado pelo educador Tião Rocha. Desde 1984, roda, cafuné, abraço e sabão foram transformados em pedagogias e o pé de manga (isso mesmo!) em “sala de aula”. Além dos inúmeros projetos desenvolvidos em território nacional, países como Angola, Moçambique e Guiné Bissau também agregam experiências vindas lá das Minas Gerais. A essência do CPDC humaniza a educação e instiga ação e reflexão por meio de práticas de aprendizagem simples e construídas coletivamente – já pensaram em alfabetização com biscoitos? 

Em ambos, para lá do que já fora mencionado, saltam aos olhos outros predicados: customizam a relação “ensinar-aprender” e valorizam os múltiplos saberes dos agentes, o que enriqueceria ainda mais as vivências, tornando-as experiências completas de vida. E, ainda, ampliam as possibilidades de cada indivíduo em tomar para si o controle de seus próprios destinos. 

Ora, torna-se evidente que as possibilidades de transformação são infinitas e que há uma centelha de futuro bastante otimista. Mais que adaptáveis aos diferentes ambientes, são também (e principalmente) formas de compreensão da educação realmente voltadas e comprometidas com desenvolvimento humano.

[1] Kira dirige a River Side School, onde o DFC nasceu e é aplicado.
[2] Para conhecer mais sobre design thinking voltado à educação acesse Design Thinking For Educators e IDEO.
[3] Mais informações sobre as perspectivas da educação, segundo a UNESCO, disponíveis aqui.
[4] Infográfico sobre perspectivas da educação disponível aqui.


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