Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 2]

[A Página Internacional dá continuidade à série de postagens intitulada “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este segundo post traz como tema a emergência de novas organizações ditas “alternativas” e que impactam diretamente a realidade social. É o caso dos chamados “coletivos culturais”. Aproveitem a leitura!] 

Instinto Coletivo: “velhos sonhos, novos nomes”*. 


No Brasil, após o boom de iniciativas do terceiro setor e da sociedade civil na década de 1990, aspirando por demandas diversas, temos visto a emergência de outras formas de movimentação social, estabelecendo-se com solidez em território nacional. Nota-se, então, uma tendência à proliferação de manifestações e tipos de organização, cujas características tão peculiares se prestam a (re) colorir o imaginário e a realidade social brasileira. Estamos a falar de agrupamentos de pessoas voltadas aos mesmos fins, os chamados coletivos culturais. Em suma, representam as novas formas de produzir, organizar e valorizar o fazer cultural. Mais que isso, representam também a voz de uma geração que pensa, age e sente de forma articulada e colaborativa. 

É o caso do Circuito Fora do Eixo (FdE). Trata-se de uma rede de trabalho concebida por produtores culturais, ao final de 2005, cujo objetivo era estimular a circulação de bandas, o intercâmbio de tecnologia social e o escoamento de produtos para além do eixo dito “tradicional” – em muitos sentidos. E, também, superar os desafios e a invisibilidade, na qual as múltiplas manifestações artísticas e culturais (são) eram relegadas. Tal perspectiva se reforça quando Pablo Capilé, um dos fundadores e articuladores do FdE, afirma: “[…] Não tem grana da iniciativa privada, não tem um mercado e o poder público não nos visualiza. A gente tem que empreender.” Criou-se, assim, um universo cultural paralelo e independente, que conta com uma gama de elementos próprios, os quais chamam de simulacros FdE: universidade (UniFdE), agente econômico e financeiro (Banco FdE), ação política (PCult – Partido FdE) e a Mídia FdE (que conta com diversas ferramentas para compartilhamento – e a consequente democratização –, do conhecimento, cujo o conteúdo está disponível na rede). 

Reconhecendo o alto potencial latino americano para o desenvolvimento de circuitos culturais independentes, o FdE transcendeu as fronteiras brasileiras e se integrou aos “hermanos”. É aquela velha história: realidades distintas, demandas semelhantes. Propuseram, então, um “junto e misturado” que fomentou iniciativas solidárias, colaborativas e articuladas – seja por meio de vivências e imersões, compartilhamento de ideias e tecnologias, debates, promoção de festivais e eventos. Países como Argentina, Venezuela e Uruguai se tornaram grandes parceiros sociais do FdE. 

O Grito Rock, por exemplo, maior festival de artes integradas da America Latina, fechou em 2012 um ciclo de 200 cidades em 15 países. Foram 170 mil pessoas em mais de 180 edições. Parte do financiamento do evento se deu por meio da moeda complementar do FdE. 

Se se trata de um movimento continental que estimula (inter)conexões e (inter)ações sadias entre as diferentes nações, talvez estejamos a falar de uma espécie de “panamericanismo” sob novas nuances – não nos prendamos ao que o signo tem feito menção historicamente, mas a uma releitura simbólica deste. Isso porque o movimento cultural ao qual nos referimos se pautaria também em princípios diplomáticos e sociais, agora livres de interesses meramente econômicos e/ou políticos que, ainda que timidamente, estimulariam o empreendimento conjunto de um novo universo. Num século XXI permeado por significações e ressignificações, não se trata agora de um libertar colonial – ainda que por vezes nos deparemos com seus resquícios – mas de um libertar de instintos coletivos, antes velados e esmaecidos. Velhos sonhos ganham, portanto, novos nomes. 

* Em referência à música Instinto Coletivo de O Rappa.


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2 comments
Pedro Paulo
Pedro Paulo

Muito bom o post; bem como essa série.

Pedro Paulo
Pedro Paulo

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