Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 10]

[Encerra-se, hoje, a série “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Desde já, a equipe da Página Internacional gostaria de agradecer imensamente sua contribuição, que aumentou bastante o leque de temas trabalhados no blog. Este décimo post analisa algumas consequências de “políticas desajustadas pelo mundo”. Aproveitem a leitura!] 

Jogos Vorazes: verdade ou desafio? 

Nem todo conluio é vão, em natureza e fins. Verdade ou desafio? 

Na ficção, sempre que há a incomoda presença das irmãs repressão e opressão, levantes se tornam peças no tabuleiro de jogos tão vorazes. É assim em Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932), em Fahrenheit 451 (Ray Brandbuy, 1953), Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (George Orwell, 1948), Battle Royale (Koushun Takami, 1999) e, no mais recente, The Hunger Games (Suzanne Collins, 2008). Ora, se a arte imita a vida e vice-versa, não seria exagerado afirmar que estamos a viver num momento em que iniciativas políticas “desajustadas” ainda teimam em dar as caras e que, para tanto, surgem respostas inusitadas. Embora nem sempre assim sejam compreendidas algumas lembram curiosas e intrigantes conspirações – termo que compreendo mais como uma “vontade coletiva em prol do avesso” e menos (muito menos) no sentido daquelas teorias desconfiadas – em que canetas BIC são rastreadores da NASA, Paul McCartney não é o Beatle original e Elvis não morreu… [1]

Descrevo, a seguir, três delas. 

Há pouco tivemos o caso Pussy Riot, banda punk feminista que ao sustentar uma narrativa anti-Putin teve parte de suas integrantes presa. Houve comoção internacional por conta da severidade com a qual o caso teria sido tratado, mas também por tornar evidentes equívocos e destemperos do atual governo russo. [2] Composta por anônimas, as artistas mascaradas teceriam críticas à gestão do Kremlin por meio de letras e apresentações clandestinas, como aquela que tentou colorir a Catedral de Cristo Salvador. Esta última resultaria na prisão e na recente condenação das dissidentes por vandalismo. Simbolicamente, a “oração punk”, cuja duração seria de menos do que um minuto, bastou para que a ousadia das jovens pusesse abaixo as máscaras de um Estado conservador, no qual os limites entre religião e política são confusos e, portanto, questionáveis. 

Por falar em movimento anônimo e mascarado… Quantos já ouviram falar na ideia Anonymous

Desde 2003-2004, esta se trata de uma emblemática representante do chamado “hacktivismo”. Dizem as más línguas que, em realidade, seria uma forma contemporânea de terrorismo. Os caras, entretanto, se autodefinem como uma “ideia de mudança” [3] voltada a lutar contra as injustiças do mundo. Para o bem ou para o mal, a Anonymous disseminou a ideologia hacker ao mesmo tempo em que passou a colecionar intervenções memoráveis ao longo de seu histórico (Avenge Assange e Occupy Wall Street estão no pacote). Apesar de ser característico aos integrantes se utilizarem da face estilizada de Guy Fawkes, a mesma de V for Vendetta (V de Vingança, 2006), como elemento identificador do ciberativismo, a figura acabou se tornando ícone “pop”. Ressalto, contudo, que a busca incessante por liberdade – e, então, justiça – mesmo que em meio ao caos que provocam, parece ser o ponto nodal da missão desta legião de anônimos

Por fim, embora saibamos que virais são suficientemente polêmicos a ponto de gerar desconfianças (vide KONY 2012), a terceira e última “maquinação” assim veio a nós: Israel Loves Iran, famigerada fonte de compartilhamentos nas redes sociais, soa como o mais novo “boicote” civil ao que pretendem os entes do sistema. Por meio de uma campanha virtual, o casal anônimo Ronny Edry e Michal Tamir se dispôs a propagar o amor e a tolerância como antídotos à eminência de conflito – a saber, Israel se sente ameaçado pelo programa nuclear iraniano e blá blá blá. O objetivo seria suprimir o discurso belicoso das partes e ceder espaço às mensagens de conscientização, fazendo com que o amor se apresente como elemento transformador. Aparentemente bem sucedida, a proposta do casal israelense teve a adesão não apenas do Irã, mas também de outros países pelo mundo. 

Que representam as iniciativas? O avesso, como enunciado ao inicio. Antes de serem conotadas como subversão – de natureza e em intensidades distintas –, sugiro que sejam compreendidas para além. Compreendidas como a reação voraz do humano. Simples, apenas, tão somente assim.

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Ao propor este espaço objetivei olhar ao mundão, nossa morada e objeto de estudo, de forma transcendente. Reconheço que nem todos os temas abordados (eram) são passíveis de incorporação às Relações Internacionais enquanto disciplina. Diria, em realidade, que estariam para além. Para além da caixa de fósforos na qual foram transformadas as Relações Internacionais. Creio, contudo, na esperança. A mesma esperança que resta ao fundo da caixa de pandora. Aquela em que a aspereza do mundo não supera a delicadeza da vida. Verdade ou desafio? 

[1] Mais aqui e aqui.
[2] Entenda mais do contexto Russo por abordagens anteriores do Página Internacional aqui, aqui, aqui.
[3] Mais sobre o Anonymous aqui.


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