Hora de acabar?

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Se o final da Guerra Fria não tem exatamente um ponto definido, ele geralmente é considerado como o desmantelamento do chamado “Segundo Mundo”. Mas isso sempre carrega um asterisco nos livros. Para alguns países, aquele conflito tecnicamente não teria acabado, especificamente para Cuba e Coreia do Norte, os dois principais bastiões da resistência do modelo de economia planificada. Por isso chama a atenção o noticiário dessa semana, em que de um lado finalmente tivemos um avanço histórico que pode literalmente significar o fim da tensão entre EUA e Cuba, enquanto a Coreia do Norte apronta de novo e fortalece cada vez mais posição de isolamento.

Nem é necessário aprofundar muito a discussão sobre a incrível reaproximação de Cuba e EUA após meio século de rompimento diplomático. O gradual e controverso processo de distensão entre a ilhota e o gigante significa muitas coisas, de jogar uma pá de cal no conflito ideológico nas Américas à possível revisão do embargo americano. Isso não virá sem desafios, com insatisfação de ambos os lados, especialmente do norte-americano, mas significa um freio à retórica antiamericana que se tornou bastante popular por estas bandas e se apoiava, em parte, na inimizade de Washington com Havana, bem como à retórica anticomunista que as direitas exaltadas que pipocam pelas redes sociais e em partidos radicais. O mundo se mostra um lugar bem mais complexo que qualquer maniqueísmo ideológico, e felizmente prevalece o bom senso naquele que pode ser o grande legado de Obama para a história após dois governos conturbados.

O que destoa completamente da Coreia do Norte. O país, único não-signatário do TNP que busca abertamente desenvolver capacidade nuclear para usos militares, surge em meio à polêmica da invasão dos servidores de um estúdio norte-americano que estava prestes a lançar um filme de conteúdo sensível – uma comédia em que o enredo se baseia na tentativa de assassinato do presidente norte-coreano. O grupo de hackers que ameaçou as distribuidoras e salas de cinema que exibissem o filme, além de vazar alguns filmes inéditos e roubar dados de fornecedores e clientes, não assumiu diretamente estar ligado a qualquer governo mas fontes dos EUA confirmam a participação de Pyongyang, onde a guerra cibernética é uma realidade e um esforço concentrado do Estado.  Estando ligado aos ataques ou não, o governo norte-coreano continua a vociferar contra os países do Ocidente e mobilizar capacidades como resposta à ameaça de levar o país ao TPI levantada pela ONU por violações contra direitos humanos. O cuidado com que se trata a situação da Coreia do Norte, que levou inclusive à suspensão da exibição do tal filme, mostra que nessa parte do mundo ainda persiste uma lógica de enfrentamento de base ideológica. Mantendo o isolamento e uma política agressiva, a Coreia do Norte parece andar na contramão da história e conta nos dedos seus aliados.

É óbvio que dizer que a Guerra Fria persiste é um exagero. Há quem veja as tensões crescentes com a Rússia como sinal de algo dessa natureza, mas mesmo assim não tende a sair do campo econômico. A aproximação dos EUA com Cuba é mero indicativo de que aquela situação aberrante simplesmente não se encaixa no sistema internacional moderno e já passara da hora de ter sido resolvida. A exceção mesmo é o caso único da Coreia do Norte, naquela região em que persiste um “microcosmo residual” da Guerra Fria, nas palavras de Barry Buzan, em que a inserção do poder atômico faz com que os cálculos políticos sejam diferenciados do que se pratica em outras partes do mundo e o conflito de viés ideológico se mantenha congelado no tempo.


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