Hillary no Brasil

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Hillary Clintou está em visita pela América do Sul e chegou ao Brasil. Depois que os países da América Latina criaram uma ‘OEA sem os EUA’, das críticas do continente quanto à postura americana frente à Cuba e aos acontecimentos em Honduras, os EUA buscam apoio em um continente que cada vez mais se afasta e que, aos poucos, vê o Brasil crescer em influência.

A confiança dos latino-americanos nos colegas do norte foi rompida após quebra de expectativas quanto à mudança tão anunciada da política de Bush para Obama. Hillary passou primeiro no Uruguai e Chile, e visitou também a Argentina. Prova do empenho dos EUA em reconquistar o apoio do continente revelou-se na sinalização de que os EUA interviriam junto à Grã-Bretanha para promover diálogos entre esses e a Argentina quanto à soberania sobre as Malvinas.

Hillary quer pedir apoio para sua tentativa de conseguir que o conselho de segurança da ONU aplique nova sanções ao Irã por causa de seu programa nuclear. O Brasil já sinalizou que não vai convergir com tal demanda até acreditar que todas as vias de negociação tenham sido esgotadas. Diz-se que tal postura se dá em virtude dos problemas que o próprio Brasil já enfrentou ao desenvolver tecnologia nuclear e ver-se investigado por suspeitas de que os fins não fossem pacíficos.

Outros acham um absurdo que o Brasil tenha recebido Ahmadinejad ano passado, que foi uma trapalhada da diplomacia brasileira. Eu mesmo tenho minhas dúvidas da boa vontade brasileira com Irã, Venezuela, e os tantos outros casos em que o altruísmo brasileiro perdeu apenas para Madre Tereza. Mas, na tentativa de não misturar todos esses casos numa panela só, não é por que um país recebe outro que ele concorde com seu discurso, certo? Se Obama recebesse o presidente do Irã, não significaria que os EUA concordem com a negação do holocausto ou a ausência de homossexuais no Irã, como afirmou Ahmadinejad. Moçinhos e bandidos são para melodramas, não para relações entre países.

Voltando à visita de Hillary, além de não obter o apoio brasileiro com as sanções, outros assuntos delicados foram discutidos, como as bases militares na Colômbia, as retaliações comerciais aos EUA na disputa do algodão, a eleição de Porfírio Lobo em Honduras, a recuperação do Haiti (situação que deverá se repetir com o Chile agora). O tom é amistoso, mas as posições permaneceram marcadas. Hillary também apelou ao congresso sobre a não-proliferação nuclear no Irã.

Em suma, a secretária de Estado tenta recuperar apoio na América Latina, mas no último todo os pontos divergentes de tornaram cada vez mais públicos. Amorim chegou mesmo a afirmar, em um dos assuntos, que o Brasil “não prefere” a via do contencioso, mas que o país “não pode se curvar” diante de nações mais fortes.

Estamos mesmo mostrando os dentes.


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