Herois e Bandidos

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A história é escrita pelos vencedores. Essa famosa frase de George Orwell tornou-se quase que uma cláusula pétrea para muitos. Mas quais seriam essas personagens? Bom, seriam os que ganharam as guerras, aqueles que vieram a ditar valores morais, éticos, comerciais e etc. Há quem diga, “ah, mas princípios e valores são construídos!”. Sim, de fato são, só que sua difusão tende a dar-se sob os auspícios desses tais vencedores.

Está bem, mas por que estamos falando disso tudo? Bom, iremos direto ao ponto. Hoje, o primeiro-ministro do Conselho Nacional de Transição, Mammoud Jibril, declarou que o coronel Muammar Kaddafi foi morto em Sirte, sua cidade natal na Líbia. Um evento que, representou o mais novo capítulo na longa história da Primavera Árabe, abriu também um novo na história líbia (para mais, clique aqui, aqui e aqui)

A morte de Kaddafi não representa o fim de discussões acerca dessa longa guerra civil e sim o início de mais dúvidas e questionamentos. Agora, declaradamente, temos um bandido morto, ou assim será conhecido pela história. E os vencedores, nesse caso, quem seriam? A princípio seria o povo da Líbia. Mas os países ocidentais que participaram da intervenção da OTAN também não poderão ser esquecidos. Devem então ser os herois do nosso episódio.

Sendo assim, uma das principais dúvidas que surgem seria sobre os custos de se esquecer o modo como a queda de Kaddafi ocorreu e de ignorar-se o precedente perigoso que pode abrir para nossos herois das relações internacionais. O fato de terem “vencido” pode acarretar na efetivação de um costume de intervenções, sem que se atente para os problemas e dificuldades dessas ações.

Já há algum tempo que se discute na política internacional o conceito de “responsabilidade de intervir” (do inglês “responsability to protect” ou simplesmente R2P). Esse conceito não possui nem uma década de idade e, a despeito de seu conteúdo já ter sido contemplado em outras ocasiões no século XX, significa que um governo pode ser responsabilizado por não garantir o bem-estar de seus cidadãos, podendo acarretar intervenções militares para proteger o povo. Essa foi a sustentação teórica da atuação da OTAN.

No plano formal, desde 2005 que as Nações Unidas adotaram-no como uma forma de prevenir crimes atrozes (“atrocity crimes”, tradução livre). O que significa que um suposto sucesso da ação na Líbia pode inspirar outras ações do tipo e ainda outros excessos das atribuições garantidas (o que já ocorreu na intervenção da OTAN, na qual foram realizadas ações muito além daquilo deliberado pelo Conselho de Segurança). Por isso, os supostos vencedores do evento e o heroísmo inspirado por eles podem cegar a comunidade internacional para problemas estruturais no concernente às intervenções humanitárias.

Tais ações podem ser capazes de se traduzirem em importantes resultados para algumas populações que são alvo de genocídios ou tragédias humanas. O problema está na falta de regulamentação e na arbitrariedade de seu uso (Por que escolheu-se a Líbia e não a Síria que passa por problemas de porte semelhante?) que pode abrir um precedente perigoso para o Tio Sam, as potências europeias ou mesmo a China e a Rússia saiam intervindo onde entendem que há genocídios ou atrocidades.

Na primavera árabe colhem-se os frutos de muitos anos de germinar das sementes que as grandes potências europeias plantaram (pouco fala-se do amor anterior desses países aos ditadores africanos em xeque nas revoltas). E, atualmente, entre banditismos e heroísmos, tenta-se plantar novos valores e cursos de ação para que os vencedores anteriores continuem vencendo, mudando-se apenas os adversários.

[Para mais sobre a questão do “responsability to protect“: 1 e 2 ]


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


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