Hermanos, pero no mucho

Por

Reação de uma eurodeputada à proposta de aprofundamento das relações comerciais com o Mercosul

Estamos na reta final da Copa do Mundo e o sentimento de união entre os países, que perfez o início dos jogos, se ofusca, dando lugar a um caldeirão de frustrações, alegrias e rivalidades. O assunto está tão em pauta, que nem mesmo a primeira visita ao Brasil do novo chanceler argentino, Héctor Timmerman, foi capaz de deixar de lado uma conversa sobre futebol. Por detrás de comentários jocosos inspirados na atual fase do mundial e da rivalidade futebolística entre brasileiros e argentinos, vislumbram-se anos de discórdia e lutas pela liderança regional sul-americana.

Historicamente, as relações políticas e econômicas entre Brasil e Argentina tardaram em alterar-se, somente atingindo um tom mais cooperativo ao final da década de 1980 e em meados da década de 1990. A assinatura do Tratado de Assunção em 1991 – criando o Mercosul – parecia haver trazido um novo patamar de entendimentos para os dois países. Todavia, ainda hoje é possível observar, no interior do Mercosul, certa herança dessa rivalidade histórica.

Exemplo disso são os famosos casos de barreiras argentinas à produtos brasileiros. E o novo episódio dessa longa saga deu-se em maio desse ano, com bases em uma controversa declaração do secretário do Comércio Interior argentino, Guilherme Moreno. Nesse polêmico discurso, o secretário argentino defendeu que os empresários e comerciantes de seu país não importassem produtos brasileiros que possuíssem homólogos nacionais. Ainda, falou-se de um bloqueio para esses produtos alimentícios. Pouco se sabe se tal iniciativa foi consolidada ou não, do ponto de vista oficial, mas sabe-se que a repercussão para a parceria comercial brasileiro-argentina (e até mesmo para os próprios comerciantes argentinos) não foi nada boa. O Brasil reagiu declarando que, se tal iniciativa fosse consolidada, haveriam medidas contra a Argentina.

Dado esse desenrolar de eventos, a recente visita do novo ministro argentino ao Brasil teve fins diplomáticos bem definidos: esclarecer essas questões comerciais – frisando que a Argentina não impôs oficialmente essas barreiras comerciais – e reforçar a importância das relações comerciais bilaterais. Ao final do encontro as pautas podem até ter sido esclarecidas, mas seus efeitos transcenderam a América do Sul, recaindo diretamente sobre o discurso da União Europeia. Daí emerge certa resistência ao aprofundamento das relações comerciais entre Mercosul e a UE. Afinal, como dar credibilidade a um bloco que não nem mesmo a tem entre seus próprios membros? E outra, talvez o Brasil não seja o único alvo de bloqueios e medidas protecionistas no setor alimentício, pois o próprio bloco europeu tem exigido o fim de medidas desse gênero por parte dos argentinos.

Esse tipo de prática de protecionismo no Mercosul degrada as relações comerciais no interior do bloco e garante-lhe desprestígio em âmbito internacional. Assim, entende-se que o maior receio da UE é que em um possível tratado de livre comércio com o Mercosul, os países-membros democratizem essa prática, o que os europeus não se podem dar ao luxo, dada a grave situação econômica de seu bloco.

Nossos hermanos argentinos podem até ter deixado de ser o foco de nosso eixo estratégico em questões de defesa. Mas tanto no campo de futebol, quanto no campo econômico, os resquícios dessa antiga rivalidade histórica ainda transparecem.


Categorias: Américas, Brasil, Organizações Internacionais, Polêmica


1 comments
Anonymous
Anonymous

Este comentário foi removido por um administrador do blog.