Há um ano…

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[Esta imagem foi extraída de um post do Luís Felipe]

Há um ano lançávamos nosso primeiro Podcast, acerca dos efeitos da crise financeira mundial nos países sul-americanos. No entanto, adiantaremos uma semana para tratarmos de um dos assuntos mais em voga: o Afeganistão, assunto que inaugurou minhas postagens na Página Internacional (aqui). Se perpétua era a prisão afegã, dos seus domínios o Afeganistão não pode sair. Nada de liberdade ou alforria, segue o país como escravo, dependente da comunidade internacional, sem o cumprimento dos desígnios de nação grandiosa que o passado lhe reservou. Antes, uma fria guerra confrontou duas ideologias em solo afegão; hoje, uma quente guerra sustenta o choque civilizacional entre Ocidente e Oriente.

Para muitos, “recordar é viver”; para o Afeganistão, recordar é morrer. E morrer aos poucos. Morreu o sistema eleitoral e a democracia, assunto caro para a Andrea e o Alcir durante 2009 (aqui e aqui), com a vitória de Hamid Karzai, o honorável. Morreu a soberania, a capacidade de auto-realizar o seu destino, com as dependências da OTAN e demais forças de coalizões internacionais ou países interventores. E o pior de tudo, morreram pessoas… Bombas e balas feriram de morte inimigos e inocentes (eis as mais recentes aqui e aqui).

Em março do ano passado, anunciava os Estados Unidos um novo plano para o Afeganistão; em dezembro, uma nova estratégia. Ontem, decidiram pelo envio de mais 2.500 soldados ao norte do país, dentro das estimativas previstas pelo último documento, sob a alegação de que “[os insurgentes] estão ficando mais violentos do que eram”. Decerto, o governo norte-americano está ficando mais pacífico ao pensar que novas ofensivas promovem a paz. Sem contar que o exército norte-americano enfrenta severas questões morais: homossexuais podem ou não compor o efetivo? Em 1993, o presidente Clinton autorizou a presença deles nas tropas desde que a opção sexual não fosse discutida abertamente. O chefe do Estado-Maior do Exército , o general George Casey, condenou que os gays se assumam. Foi parar no Superior Tribunal Militar. (Aliás, foi muito oportuno o post da Andrea desta semana para repensarmos esta questão.)

E agora Steven Spielberg e Tom Hanks lançam a série mais cara da história dos Estados Unidos, “The Pacific”, narrando a história de três marines norte-americanos nos confrontos entre Japão e Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Mal estreou e Hanks já criou polêmica ao questionar se haveria semelhança entre aquela época – “os amarelos com olhos puxados” que acreditavam em vários deuses e que queriam matar os norte-americanos porque tinham um estilo de vida diferente, os quais tinham que aniquilar aqueles – e o que ocorre hoje. Como estamos no campo das comparações, podemos também questionar se essa é mesmo a série mais cara, afinal, declarou o general Stanley McChrystal, comandante das tropas da OTAN no Afeganistão, que vão capturar Osama Bin Laden ao vivo. Gasta-se mais numa produção cinematográfica do que em esforços de guerra?

Mais do que o líder da Al Qaeda, os Estados Unidos vão prender um ativista ambiental e humanitário. Bin Laden, no início deste ano, condenou os países ricos pelas mudanças climáticas e afirmou que os atentados só cessarão quando os norte-americanos deixarem de apoiar Israel. Nossas estrelas hollywoodianas precisam rever o conceito de glamour. É tanta fama que até o Irã patrocina a Al Qaeda, o Paquistão serve de esconderijo e o norte da África de influência.

E o que fica no Afeganistão após um ano? Nada de muitas novidades. Apenas uma ampulheta imóvel cuja areia se esqueceu de cair. Já a comunidade internacional continua na procura pelo Santo Graal do mundo contemporâneo, místico em sua busca nem tanto em seus fins: pacificar e reconstruir o país.


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